A produção brasileira de leite estagnou?

A produção brasileira de leite estagnou?

16 de junho, 2024

Enquanto alguns produtos do agronegócio brasileiro tiveram forte crescimento nos últimos anos, a produção leiteira parece que estacionou no país. Segundo dados do IBGE, a produção brasileira de leite – que vinha tendo um crescimento quase linear até 2014 – vem andando de lado na última década (gráfico 1).

Gráfico 1. Captação anual de leite no Brasil (bilhões de litros)

Assim, a pergunta que não quer calar é: por que a produção de leite está patinando? Os resultados disso são reflexos de diversos fatores, alguns dos quais são discutidos a seguir.

A competição com outras culturas

O leite tem assistido outras culturas decolarem e – de alguma forma – tudo está conectado no agro, as vezes de forma sinérgica, as vezes de forma competitiva.

O leite tem perdido a disputa por terras. Este recurso finito é um dos mais importantes (se não o mais importante) na produção agropecuária. Desta forma, as produções que se mostrarem mais competitivas economicamente tendem a ganhar espaço.

Apesar de não haver dados consolidados da área utilizada para produção de leite no Brasil, podemos observar abaixo a expansão da área plantada de milho e soja nos últimos anos, que são 2 culturas que têm substituído “áreas de leite” em diversas regiões.

Gráfico 2. Área plantada de milho e soja (milhões de hectares)

Essa ampliação da área de grãos – em locais que anteriormente produziam leite – muitas das vezes é realizada via arrendamento das terras. Abaixo, podemos observar a margem bruta de um grupo de produtores de leite em Goiás vs o preço médio estimado do valor de arrendamento da terra na região para o mesmo período.

Gráfico 3. Rentabilidade da produção de leite vs arrendamento para soja em 2019 - GO (R$/ha/ano)

Então, podemos afirmar que é mais vantajoso arrendar do que produzir leite? Nem sempre.

O próprio gráfico 3 mostra que alguns produtores obtêm desempenho bastante superior ao do custo de oportunidade com arrendamento. Em alguns casos (produtores “I” e “K”), com margens 3x superior ao do arrendamento para soja.

Por outro lado, grande parte dos pecuaristas analisados apresentam desempenho mais baixo. E essas fazendas produtoras de leite menos eficientes estão perdendo espaço para outros negócios, que se mostram mais lucrativos para o produtor.

A eficiência produtiva do leite

Não é novidade para ninguém que o Brasil deixa a desejar em diversos aspectos no que tange a eficiência produtiva do leite. Em se tratando de CCS (Contagem de Células Somáticas), por exemplo, o Brasil aparentemente não saiu do lugar na última década, como pode ser visto no gráfico 4.

Gráfico 4. Evolução da qualidade do leite no Brasil: CCS e CPP

Quanto à produção de sólidos, o Brasil também apresenta desempenho bem inferior a países que demostram maior eficiência, inclusive dos seus principais vizinhos, os quais são seus concorrentes.

Todos esses fatores limitam a competitividade da indústria, impactando em toda a cadeia produtiva. Além disto, uma grande preocupação é o fato de não termos evoluído praticamente nada nesse quesito nos últimos anos, conforme mostra o gráfico 5.

Gráfico 5. Evolução do teor de sólidos no Brasil (%)

O aumento do preço do leite não tem compensado os custos

Outro grande desafio que o produtor de leite tem enfrentado nos últimos anos é o forte aumento do custo de produção.

Ao se fazer o comparativo entre o indicador de inflação do leite (ICPleite), com 2 dos principais indicadores de inflação do mercado (IPCA e IGP-DI), vemos que o aumento dos custos para produção de leite foi superior ao aumento dos custos medidos pelos demais indicadores. Dessa forma, no médio prazo, percebe-se que o preço do leite não conseguiu ter ganhos significativos sobre os aumentos dos custos.

Gráfico 6. Preço do leite vs indicadores de inflação (jan 2007 = 100)

Ao se deflacionar o preço do leite pelo seu indicador de inflação de custo de produção (ICPLeite), é possível notar que no intervalo de 2007 a 2023 a tendência foi próxima à estabilidade. Entretanto, apesar de a tendência ser de estagnação no período completo, há 2 fases da série em que os comportamentos são diferentes:

  • De 2007 a 2014, a tendência era de diminuição; e
  • A partir de 2015, a tendência se tornou de crescimento.

Gráfico 7. Preço do leite divido em 2 períodos (Média Cepea BR deflacionada pelo ICP-Leite)

Vemos que, a partir de 2015, a tendência para o preço do leite começou a ser de crescimento. Mas, não coincidentemente, depois de 2015 é que a produção de leite começou a estagnar.

Um dos fatores que ajuda a explicar esse contrassenso é a volatilidade do preço do leite nos últimos anos.

Apesar de mostrar tendência de alta, o período 2 apresenta uma volatilidade superior entre os meses em relação ao período 1. Analisando-se as 2 séries, percebe-se que o período 1 apresenta um desvio padrão mensal de 0,25, contra 0,33 do período 2. Anualmente – de 2015 a 2013 – o desvio padrão foi de 0,23, enquanto no período 1 foi de 0,15.

Uma maior volatilidade do preço do leite traz maiores níveis de incertezas para o produtor, além de exigir uma gestão estratégica e de fluxo de caixa mais precisa pelo pecuarista.

A aversão do produtor à alta volatilidade e incerteza de preços já haviam sido evidenciadas pelo "Diagnóstico do Leite de Goiás", que mostrou que os produtores do estado consideram esses 2 fatores como problemas maiores em relação ao “preço baixo” do leite.

Figura 1: Pesquisa sobre o maior desafio na produção de leite

A figura acima indica que uma maior previsibilidade do preço ao produtor e uma menor oscilação entre os meses tendem a ser caminhos para fortalecer a produção de leite no Brasil. 

Nesse cenário de competição com outras culturas, desafios de eficiência e dificuldades em relação a eficiência financeira do negócio, o leite brasileiro ainda tem enfrentado um outro grande concorrente: as importações.

As importações

Ao analisarmos a competitividade das importações em relação ao produto local, um dos fatores mais importantes é a taxa de câmbio.

De um lado, o aumento da taxa de câmbio pode tornar o produto importado mais caro no curto prazo. Mas, o aumento do câmbio eleva o custo de produção no Brasil, que precisa ser acompanhado de aumento do preço do leite. O resultado é um aumento no diferencial de preço do leite brasileiro em relação a outros mercados, estimulando as importações.

Gráfico 8. Índice da Taxa de Câmbio Real (R$/dólar)

O grande aumento da taxa de câmbio a partir de 2019 colaborou para o aumento do custo de produção de leite, evidenciado pelo ICPLeite, no gráfico 6. Além disso, os outros pontos discutidos anteriormente (especialmente em relação à eficiência produtiva) fazem com que o preço do leite brasileiro fique superior ao de outros mercados – especialmente da Argentina e do Uruguai.

Gráfico 9. Preço do leite em diferentes países (USD/kg)

A partir de abril/2022, o preço do leite brasileiro ficou bem mais caro se comparado aos principais países exportadores. Desde então, as importações foram continuamente estimuladas, refletindo no maior volume anual de importações de toda a série histórica.

Gráfico 10. Importação anual de lácteos em equivalente leite (milhões de litros/anos)

O consumo tem deixado a desejar

Apesar do alto volume de importações, o outro lado da balança de mercado também tem deixado a desejar: o consumo.

Ao analisarmos o consumo per capita de lácteos nos últimos anos, vemos também uma estagnação. Isso mostra que as importações não “comeram” a parcela de crescimento do consumo.

Gráfico 11. Consumo de leite anual per capita (litros/pessoa/ano)

Dessa forma, o consumo de lácteos deve continuar a ser estimulado, o que poderia causar um estímulo mais forte do lado da oferta. E quais caminhos podemos seguir para estimular significativamente o consumo:

  • Aumento de vendas para outros mercados (exportações): esse é um sonho antigo e distante do setor. Apesar de o Brasil aproveitar algumas raras janelas de exportações ao longo dos anos, o nosso país precisa ainda evoluir bastante para se consolidar como um player exportador de lácteos. 
  • Crescimento da demanda puxado pelo crescimento populacional: mesmo se estagnado o consumo per capita, o crescimento populacional poderia estimular a oferta total. Entretanto, o Brasil parece não estar caminhando nesse sentido. O último censo populacional, divulgado no ano passado, foi uma grande surpresa para todo o mercado, ao evidenciar a forte desaceleração do crescimento demográfico brasileiro.
  • Crescimento do consumo per capita: este parece ser o caminho mais factível de curto e médio prazo. Se comparado com nossos vizinhos (Argentina e Uruguai) e com regiões desenvolvidas, como Estados Unidos e Europa, vemos que ainda há grande espaço para elevação do consumo per capita de lácteos no Brasil. Além disso, o crescimento sustentável da economia brasileira e a elevação do poder de compra dos lácteos (que passam também pelos aspectos de competitividade e eficiência da produção) podem contribuir.

Portanto, vemos que são diversos os desafios que têm travado a produção de leite no Brasil. Apesar desse passado recente pouco positivo, é indiscutível que ainda temos muito espaço para crescer. O Brasil tem um dos maiores mercados consumidores do mundo, com mais de 200 milhões de “clientes”, além de ainda ter grande espaço para aumento do consumo per capita.

Do lado da produção, também temos a faca e o queijo na mão. Temos área, água, alimento, tecnologia, genética, estrutura e gente boa para dar saltos significativos de eficiência e produtividade.

 

Fonte: MilkPoint

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