João Ricardo Alves Pereira


Zootecnista, Doutor em Nutrição Animal e Pastagens

jricardouepg@uol.com.br

PUBLICAÇÕES

Que milho vamos plantar para silagem - Textura do grão

25 de outubro, 2019

Autor: Dr. João Ricardo Alves Pereira*

 

Em algumas regiões do Brasil ainda é comum o questionamento por técnicos e produtores sobre a recomendação de milho de grão dentado versus milho de grão duro para a produção de silagem de planta inteira ou mesmo silagem de grãos colhidos com alta umidade (acima de 30%).

Quanto à definição, o milho grão duro tem endosperma de maior densidade, grânulos de amido de cor amarelada que são mais fortemente ligados a uma matriz protéica (prolaminas) à medida que o grão se aproxima da maturação fisiológica. Milho de grão dentado (ou mole) tem os grânulos de amido mais esbranquiçados e ligados mais fracamente à matriz protéica. Geralmente, os híbridos dentados são mais farináceos e têm menor densidade de grão (mais espaço de ar entre os grânulos de amido) nas avaliações de peso/volume.  Contudo, especialistas afirmam que 60% da densidade é atribuida ao tamanho do núcleo, forma do grão, conteúdo de germe e maturidade.

Prolaminas são as proteínas que constituem a camada que “protege” o amido do grão e são constituídas por zeínas, principalmente, e outras proteínas como albuminas, globulinas e glutelinas, cuja concentração tende a ser mais elevada no endosperma vítreo do que no endosperma farináceo. Essa matriz protéica pode interferir no acesso das bactérias do rúmen aos grânulos de amido.

É importante lembrar que a vitrificação da matriz protéica se intensifica a partir da maturação fisiolológica, caracterizada pelo “ponto preto” na base grão, que agora deve ter umidade entre 30 a 38%. Nesse momento é que se colhe milho para ensilagem de grãos ou mesmo produção de sementes, ou seja, o momento ideal de ensilagem da planta inteira (volumoso) ocorreu vários dias antes.

Trabalhos de pesquisa demonstram que no momento ideal da ensilagem da planta de milho, com grãos na metade da linha do leite (farináceo-duro), não existe diferença significativa na degradabilidade ou na produção de leite e sólidos quando comparados híbridos do tipo grão duro com híbridos de grão mole (dentado), conforme ilustrado nas tabelas 01 e 02, respectivamente.

 

Tabela 1. Degradabilidade ruminal do grão de milho de diferentes texturas.

%MS Grão duro (flint) Grão mole (dent)
  Leitoso L. leite M. Fisiologica Leitoso L. leite M. Fisiologica
Dig 24h 73,3 65 19 86,2 61,4 42,3
Res 72h 1,9 3,7 41,1 1,2 4,8 16,9

Dig. Digestibilidade em 24 h; Res, Resíduo apos 72 h de digestão;

Fonte: adaptado de Pereira et al. Sci. Agric. V.61, n.4, 2004.

 

Tabela 2 - Comparação de silagens de milho de diferentes texturas de endosperma

na produção de leite

 

Milho duro

 

Milho macio

 

Consumo kg/d

23,2

23,0

Leite kg/d

34,6

34,2

Gordura kg/d

1,22

1,19

Proteina kg/d

1,07

1,06

Fonte: Anais do 2o Workshop de Milho para silagem – ESALQ/USP, 2000.

 

De acordo com Seglar (2011) os resultados de pesquisa comparando a digestibilidade do amido de milhos com diferentes vitriosidades são importantes para a compreensão dos mecanismos específicos que podem limitar a digestão do amido. Contudo, deve-se ter muito cuidado em se usar essas informações na produção de leite, carne e rações, uma vez que nessas pesquisas são comparados híbridos com valores extremos de vitreosidades, variando de 3% até 66%, enquanto que os híbridos de milho comerciais americanos empregados em rações têm vitriosidade variando entre 55 a 65%.

A fementação durante o processo de ensilagem também contribui de modo significativo para a maior digestibilidade do amido do milho. A atividade microbiana durante a fermentação e a ação química de vários produtos finais de fermentação (ex.ácidos orgânicos) reduzem os efeitos negativos da zeínas (prolaminas) sobre a digestibilidade do amido. Segundo Mahanna (2010) a digestibilidade do amido de grãos ensilados com mais de 26% de umidade aumentam cerca de 2% ao mês até doze meses após a ensilagem.

Os critérios mais importantes para a escolha do híbrido para produção de silagem devem ser agronômicos. Os híbridos efetivamente dentados, ou seja, aqueles de baixa vitriosidade e menor densidade de grãos são mais susceptíveis a pragas e doenças, devido em grande parte a sua genética “temperada” (clima) e, por isso, apresentam menores produtividades de forragem e de grãos, principalmente. O que vemos no campo é a antecipação do corte da planta, de maneira a não evidenciar a baixa sanidade desse tipo de híbrido, razão pelo qual notamos a menor quantidade de grãos nas fezes.

A colheita antecipada também facilita o corte, uma vez que mais de 70% dos produtores não afia as facas da ensiladeira ao menos uma vez ao dia, não faz o ajuste da contra faca e, no caso de colheita com forrageiras autopropelidas, não acompanha a velocidade de colheita e o processamento dos grãos. Isso muitas vezes leva o produtor a crer que a presença de grãos de milho nas fezes das vacas é devido ao atraso na colheita ou “tipo de grão” do híbrido.

O Brasil deve plantar cerca de 16 milhões de hectares nas próximas safras, dos quais quase 75% serão na segunda safra (safrinha) onde temos um grande desafio agronômico. Além dos riscos com estiagem a lavoura de safrinha demanda maiores cuidados no manejo de pragas e doenças. Também cabe refletir, de que forma é feita a secagem e o armazenamento de milho no Brasil, em especial na safrinha quando nossos silos estão abarrotados de soja. Imaginem se tivéssemos grãos dentados com baixa densidade e vitriosidade.

 

Referência:

Seglar, W. J. Vvitreous starch in corn hybrids. https://www.pioneer.com/CMRoot/Pioneer/US/Non_Searchable/agronomy/ars_pdfs/2011_Vitreous_Starch_HQ.pdf

 

*Dr. João Ricardo Pereira - Professor Adjunto da Universidade Estadual de Ponta Grossa, possui graduação em Zootecnia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Mestrado em Nutrição Animal e Pastagens pela ESALQ/USP e Doutorado em Zootecnia pela UNESP/Jaboticabal. É palestrante e consultor de empresas nas áreas de conservação de forragens e nutrição animal, ganhador do Prêmio Impacto 2012 Milkpoint, técnico do ano no Troféu Agroleite 2016.

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