Marcelo de Paula Xavier


Produtor Rural, Administrador de Empresas e Mestre em Agronegócios

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Dicas importantes para vacas Jersey no pré-parto

02 de maio, 2021

Autor: Marcelo de Paula Xavier, M.Sc.*

 

As três semanas que antecedem o parto são bem estressantes para uma vaca leiteira. Enquanto ela se prepara para parir e começar a produzir leite, suas necessidades metabólicas, nutricionais e sociais mudam. Produtores conscientes devem estar atentos a isto e estabelecer um bom protocolo de pré-parto, de modo a preparar o terreno para que suas vacas permaneçam saudáveis e lucrativas durante toda vida produtiva do rebanho.

Nesta coluna, vou enfocar o manejo no período final de gestação (21 dias antes do parto). As dicas foram adaptadas de um artigo escrito por técnicos especializados da Associação Americana do Gado Jersey (AJCA).

Diferenças da vaca Jersey

Embora, de modo geral, todas as vacas de leite possam ser manejadas da mesma forma, existem algumas diferenças importantes para as Jerseys em relação às raças de maior porte:

  • Talvez por serem menores, em condições aquém das ideais, as Jerseys têm mais desafios de transição e são mais impactadas por mudanças (de qualquer tipo).
  • As Jerseys são mais suscetíveis a apresentar febre do leite em comparação com vacas maiores, quando tratadas nas mesmas condições. Mas, independentemente da raça, estima-se que metade das vacas do rebanho apresentarão febre subclínica do leite no dia do parto.
  • Embora a ingestão de matéria seca (IMS) diminua antes do parto para todas as raças leiteiras, diminui menos entre as vacas Jersey em comparação com raças maiores. Aproveite esta vantagem e providencie um ótimo ambiente para o parto.
  • As Jerseys são notoriamente boas para separar o concentrado na dieta, por isto certifique-se de que os alimentos estejam muito bem misturados para que estas moças consumam toda a dieta fornecida.
  • Os animais mais suscetíveis a doenças metabólicas no parto são: as grandes produtoras e as vacas mais velhas (3ª lactação ou mais). Isto é importante para as Jerseys porque, como raça, elas têm uma vida produtiva mais longa.
  • As vacas Jersey depositam gordura subcutânea de maneira diferente, com mais gordura entre a cauda e os ísquios e menos sobre as costelas. Lembre-se disto ao atribuir escores de condição corporal no período de secagem e no início das lactações.

Faça tudo o que puder para manter a ingestão de matéria seca (IMS)

De modo geral, quase todos os eventos negativos associados ao parto decorrem da redução no ingestão de matéria seca. Nos dias antes do parto, uma tempestade perfeita é criada pela redução no consumo das vacas, associada a um aumento de suas necessidades nutricionais.

A diminuição no consumo leva ao que os nutricionais chamam de “balanço energético negativo”. Vacas com balanço energético negativo são mais suscetíveis a doenças, como cetose (subclínica e clínica), deslocamento de abomaso e metrite, entre outras.

Para ter um ótimo início de lactação, certifique-se de que a IMS seja mantida antes das vacas parirem. Mais ainda, certifique-se de que uma dieta balanceada e bem misturada esteja sempre disponível no cocho.

Monitore o pH da urina para avaliar a acidificação metabólica

Vacas que são “acidificadas metabolicamente” têm menos probabilidade de apresentar hipocalcemia subclínica e febre do leite. Um teste simples de pH da urina pode ajudar a determinar se as vacas estão acidificadas ou não.

Enquanto uma faixa ideal para pH de urina das holandesas é entre 6,2 e 6,7, as vacas Jersey se saem melhor com urina um pouco mais ácida, na faixa de 5,8 a 6,2. Procure manter este equilíbrio delicado, porque um pH urinário mais alto está associado a mais casos de febre do leite, enquanto que um pH mais baixo a retenções de placenta.

Use o teste de pH da urina como um meio de desenvolver padrões de referência (benchmark) para o rebanho, visando identificar as causas da variação (mudança na dieta, por exemplo). Nas fazendas, sempre há vacas com idades diferentes e que comem de maneira diferente, então, pode-se esperar variações. Procure manter um faixa estreita de variações, mas entenda que haverá animais fora deste range.

Forneça uma dieta aniônica e aumente o cálcio

Alimentar as vacas Jersey com uma dieta aniônica é especialmente importante porque eles são um pouco mais suscetíveis à febre do leite.  Para a raça, dietas com diferença cárion-ânion de -5 a -12 mEq/grama devem produzir uma redução apropriada no pH da urina. Lembre-se de que a quantidade total de ânions versus cátions consumidos determinará a acidificação metabólica. Isto novamente enfatiza a importância de manter a IMS.

Procure manter a dieta aniônica por pelo menos 14 dias. Use 21 dias como um alvo para o período de pré-parto, pois alguns animais irão parir mais cedo. Se gêmeos forem diagnosticados, forneça a dieta aniônica por 28 dias.

Além disto, as concentrações totais de cálcio devem ser maiores do que em uma dieta convencional. Procure fazer com que as vacas consumam 180-200 gramas deste mineral.

Estabeleça definições precisas de doenças

Para efetivamente identificar, tratar e determinar a magnitude das doenças, é importante estabelecer definições claras, com critérios bem definidos. Esta área é muito mais cinzenta do que se possa imaginar. Pergunte a 10 pessoas o que define uma retenção de placenta ou uma mastite e você provavelmente obterá 10 respostas diferentes.

Estabeleça definições claras e precisas para sua fazenda. Por exemplo, uma placenta retida é diagnosticada em 12 horas ou uma placenta retida em 24 horas será contada como tal? E o que fazer com os dados?

E lembre-se: Protocolos eficazes definem doenças, tratamentos e métodos de registro. Além disso, considere as metas da fazenda para cada doença e as ações para remediar caso as metas não sejam cumpridas.

Minimize o estresse, maximize o conforto da vaca

Nas semanas anteriores ao parto, uma vaca de leite está passando por enormes mudanças hormonais. Faça tudo o que puder para deixá-la confortável e manter sua rotina (a mesmice). Sempre que houver mudanças, espere quedas na IMS e aumentos no cortisol devido ao estresse.

As vacas são animais sociais, portanto, fique atento para movê-las e/ou trocá-las de lote. Você não quer que elas tenham que se ressocializar com outro grupo de animais, especialmente antes do parto. Além disso, tenha em mente que as vacas preferem estar com outros animais no parto, não em baias individuais. Apenas certifique-se de haver espaço suficiente.

Uma boa dica para densidade de animais no pré-parto é a regra de 80/20, o que significa que 80% dos canzis ou espaço de repouso estão sendo utilizados, com 20% de espaço livre.

Monitore regularmente a duração da gestação

Embora seja verdade que a duração média da gestação de uma vaca Jersey é de 278 dias, todo produtor de leite sabe que as vacas se desviam da norma com frequência. Entre outros, a gestação é afetada pelo sexo do bezerro, estação do ano, localização geográfica e genética.

Estes fatores poder gerar um grande impacto na densidade do lote de pré-parto. Reduza esse número (278) em apenas alguns dias e suas vacas podem ficar sem uma dieta aniônica por tempo suficiente. Ultrapasse-o e o pré-parto pode ficar muito cheio.

Avalie regularmente a duração da gestação para estabelecer padrões de referência para o seu rebanho, com base no número de lactações, estação do ano e uso de sêmen sexado.

Busque vacas parindo com escore corporal de 3,5 a 4,0

Evidências anedóticas mostram que é melhor as vacas Jersey chegando ao parto com escore de condição corporal ligeiramente mais alto do que as holandesas. Esta diferença, entretanto, pode ser atribuída à forma como os escores corporais são atribuídos, ao invés de um condicionamento mais pesado dos animais. Os produtores que estão familiarizados com holandesas podem dar mais pontos para as Jerseys porque eles depositam mais gordura entre os íleos e os ísquios.

Para determinar benchmarks eficazes para o rebanho, atribua a tarefa de pontuação da condição corporal a uma pessoa na fazenda. Ou certifique-se de que seu protocolo para atribuição de escores de condição corporal seja impecável e que os funcionários tenham sido educados sobre as diferenças raciais. A meta é ter as Jerseys com escore de 3,5 a 4,0 entre a secagem e o parto.

Em suma

Quando se trata de manejar as vacas com eficácia durante o período de transição, tenha duas coisas em mente: faça-as comer e deixe-as confortáveis. Com isto, todo o resto tende a seguir bem!

 

Artigo original da AJCA disponível em: https://usjerseyjournal.com/tips-for-pre-fresh-jersey-cows/

 

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*Marcelo de Paula Xavier, produtor rural, formado em Administração de Empresas pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, com Mestrado em Agronegócios pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foi presidente da Associação de Criadores de Gado Jersey do Brasil por 2 mandatos consecutivos.

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