Marcelo de Paula Xavier


Produtor Rural, Administrador de Empresas e Mestre em Agronegócios

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La Vaque dé Jèrri traduz o amor e o orgulho da Ilha pela raça Jersey

03 de setembro, 2021

Escrito por Marcelo de Paula Xavier, M.Sc.*

 

No ano de 2018, eu tive o grande prazer de conversar com o presidente da cooperativa de produtores de leite da Ilha de Jersey, Andrew Le Gallais. Foi muito interessante conhecer melhor como funciona a produção e a comercialização de leite na Ilha e entender os desafios que se impõe aos cerca de 20 produtores que mantêm as tradições em Jersey.

Não obstante, uma das coisas que mais me impressionou na conversa foi a paixão que esses criadores tem pela raça que seus antepassados criaram e que – por suas excepcionais qualidades – ganhou o mundo.

Pensando bem, é impressionante mesmo que uma ilhota de 11600 hectares – menor do que muitas fazendas no Brasil – tenha moldado a raça Jersey e impregnado nela algumas de suas características mais fundamentais, como a eficiência produtiva, a qualidade do leite e a longevidade!

Mais para o final do papo, Andrew narrou outra história muito interessante e que vale a pena compartilhar aqui, neste singelo espaço que dedico à raça Jersey.

A escultura La Vaque dé Jèrri

Em 2001, para comemorar seu 50º aniversário, o World Jersey Cattle Bureau encomendou uma obra de arte, uma escultura que representaria um pouco do amor e do orgulho que os “sapos” – como são conhecidos os habitantes da Ilha de Jersey – têm por suas fantásticas vacas de leite.

Ao custo de £ 170 mil (cerca de R$ 1,2 milhão) – coberto com doações da comunidade – a obra era um grande tributo ao gado Jersey. Assim, a associação local (RJA&HS) fez questão de garantir que as características físicas dos animais fossem exibidas com perfeição na escultura, a qual viria a ser exposta em uma praça de Saint Helier, na Ilha de Jersey.

Andrew conta que a obra foi finalizada por volta de 2002/2003 e que a ideia veio de Aidan Smith, um professor nativo de Jersey mas que não tinha ligação com a agropecuária. Em visita ao Peru, este se deparou com uma bela escultura de lhamas, em uma praça de Lima, e teve um insight: seria ótimo ter uma escultura de animais Jersey na sua Ilha natal.

Ele voltou para casa e compartilhou esse pensamento com pessoas influentes, as quais adoraram a ideia. Então, se organizou uma arrecadação de fundos e se contratou o escultor John McKenna (do Reino Unido), o qual – segundo Andrew – ficou muito animado com o trabalho. “Ele compartilhou nossa paixão pelo que queríamos fazer!”

A escultura em si tem 5 animais, sendo uma vaca mais imponente na frente, um touro grande atrás dela, outra vaca “mais tradicional” com a cabeça inclinada para um cocho de água, um bezerro e, ainda, um pequeno sapo.

O touro, explica Andrew, foi inspirado em um animal de sua propriedade: Roselands Extraordinary. “Ele era um touro muito grande, alto e comprido...e ele tinha uma índole muito boa. Porque, alguns touros Jersey ficam bravos à medida que envelhecem...mas esse touro ficava cada vez mais manso...embora fosse muito grande. Então, ele foi o touro escolhido.”

Segundo ele, foi uma experiência muito gratificante, porque a obra representa a relação apaixonada dos criadores de Jersey com seus animais e John (o escultor) compartilhava esse sentimento. “Era arte...era sobre tentar captar...a paixão que temos pelos nossos animais na Ilha de Jersey!”

Mais um fato interessante narrado por ele foi que Damien Hirst (outro escultor inglês) tinha acabado de fazer uma “escultura” cortando ao meio uma vaca que havia morrido. Algo bastante polêmico, na época. Mas, quando estava se fazendo a escultura em Jersey, Andrew fez questão de deixar claro que ele queria que o artista "capturasse o espírito" dos animais.

Na escultura, tem ainda o sapinho, que está ao lado do cocho de água. Com bom humor, Andrew comenta que os habitantes da Ilha de Jersey são conhecidos como “crapaudes”, que significa sapo em francês. E, na Ilha de Guernsey – outra ilha do Canal da Mancha e que fica bem próxima a Jersey – o apelido deles é "burro". “Nós temos essa rivalidade entre nós...é uma coisa que vem de muito tempo!”

Andrew afirma que se lembra vividamente da construção da escultura, pois – na sua opinião –  eles fizeram algo que "que não tem preço!”

Legado vivo de Jersey

Agora, os animais de bronze estão em seu local de descanso final, em uma praça de Saint Helier, a principal cidade da Ilha de Jersey. O local foi completamente remodelado e se tornou uma parte focal da cidade. À noite, a escultura é iluminada e, no verão, as crianças sobem nos animais.

A então presidente do World Jersey Cattle Bureau, Anne Perchard, descreveu a obra como uma "homenagem há muito esperada a um dos produtos mais preciosos da Ilha. O Jersey é um animal nobre, com um grande passado e um futuro muito promissor", disse ela.

A vaca Jersey faz parte do patrimônio vivo da Ilha de Jersey e a escultura celebra a habilidade dos seus criadores ao longo dos séculos, captando sempre a beleza de um dos tesouros naturais da indústria do leite!

 

 

Vale a pena conferir os detalhes da construção da obra, que Andrew compartilha no vídeo:

La Vaque dé Jèrri - linda escultura que traduz o amor e o orgulho pela raça Jersey!

 

 

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*Marcelo de Paula Xavier, produtor rural, formado em Administração de Empresas pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, com Mestrado em Agronegócios pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foi presidente da Associação de Criadores de Gado Jersey do Brasil por 2 mandatos consecutivos.

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