Marcelo de Paula Xavier


Produtor Rural, Administrador de Empresas e Mestre em Agronegócios

marcelo@fazendaipiranga.com.br

PUBLICAÇÕES

Medindo e evoluindo a vaca Jersey

02 de julho, 2019

Escrito por Marcelo de Paula Xavier*, M.Sc.

 

Antes do Herd Book ter sido criado em 1866 na Ilha de Jersey – berço da raça – ou do Herd Register do American Jersey Cattle Club (que veio a se tornar a Associação Americana de Jersey) ser criado em 1868, havia rumores de que o gado da Ilha de Jersey era um animal bastante produtivo, mas “sem pretensões de tipo".

Na verdade, apesar de sua produtividade superior, a conformação original do gado Jersey não era tudo o que se poderia desejar em termos de beleza. Em 1844, Sir John Le Couteur afirmou em seu livro The Jersey, Misnamed Alderney, Cow: “Consciente de possuir uma raça excelente para a produção de leite rico...o fazendeiro de Jersey não procurava melhorar. Ele estava contente em possuir um animal feio e malformado”.

Aliás, o Coronel Le Couter – Secretário Real na Ilha de Jersey – foi um dos primeiros a se preocupar com as características de tipo funcional em vacas de leite. Seus comentários podem ser mais adequadamente entendidos como de natureza retrospectiva e foram escritos cerca de 10 anos após ele ter criado uma “Escala de Pontos” (primeiro sistema de classificação linear para tipo da história), para ser usada nos julgamentos das exposições de Jersey na Ilha.

A insatisfação de Le Couteur com a conformação das vacas de Jersey parece ter sido despertada por um comerciante inglês de gado, chamado Michael Fowler. Embora este admirasse grandemente suas qualidades para produzir leite, ele dizia que as “vacas malformadas” de Jersey dificilmente poderiam ser consideradas uma raça.

Fowler supostamente teria sido o autor da sugestão a Le Couteur de que os fazendeiros da Ilha precisavam “melhorar a conformação da vaca Jersey, sem prejudicar suas qualidades desejáveis”. Desta forma, Fowler e Le Couteur começaram a criar naqueles fazendeiros uma apreciação pela conformação.

Em 1936, Robert M. Gow – Secretário do American Jersey Cattle Club – afirmou em seu livro The Jersey que “desde 1834 começou esse desenvolvimento em beleza, conformação e produção que tornou a Jersey famosa ao redor do mundo. Antes disso, a vaca Jersey era um diamante bruto...Uma associação de esforços, uma escala de pontos, juízes para aplicá-la nos concursos e reprodução seletiva, conservando tanto a produção quanto a conformação, tudo isso ajudou a Jersey a alcançar a fama mundial que é dela hoje”.

Os "pontos", na linguagem de meados do século XIX, equivalem ao que agora chamamos de "características". A escala original da Ilha definia sete “características primárias" para as vacas Jersey: Cabeça, olhos, chifres, orelhas, dando preferência ao refinamento e cor apropriada (30%); Linha superior e peito (15%); Couro e pêlo (7%); Barril e cauda (11%); Pernas e pés (7%); Úbere (15%); e Pontos raciais (15%).

Analisando-se os registros históricos, fica evidente que os americanos influenciaram na escala de pontos da Ilha de várias maneiras. Em 1872, um comitê foi nomeado pelo American Jersey Cattle Club (AJCC) para formular uma nova escala. Em seu trabalho preliminar, o comitê criticou a escala original de Jersey: “Cada ponto da escala recebe apenas uma contagem, como se todos fossem igualmente importantes, de modo que a contagem das narinas, da cauda e dos cascos combinados pudesse ser equivalente ao úbere...O comitê tomou a posição de que úbere significa vaca leiteira”.

Em suma, argumentou o comitê, todos os pontos não eram de igual importância. Esta visão foi esclarecida em um relatório de 1875 para os membros da AJCC: “A escala da Ilha para as vacas dá 24 dos 100 pontos à cabeça e apenas 14 para o úbere, tetos e veias mamárias – para o úbere sozinho apenas 5. A proporção de 5 contagens para úbere e 24 contagens para cabeça é uma razão que não pode, acreditamos, ser justificada por um argumento sólido”.

Embora a Escala de Pontos adotada em 1875 pelo AJCC desse maior ênfase ao caráter leiteiro e ao desenvolvimento mamário, ela o fez - em parte - por meio de um aspecto duvidoso, o “escutcheon” (ou escudo). Este termo refere-se aos pelos em forma de escudo acima do úbere. Foi hipotetizado por François Guénon que estes pelos eram um “espelho de leite”, mostrando “como em um copo, a capacidade de dar leite da vaca”.

Em poucos anos, tornou-se evidente que o escudo era um “ponto de fantasia”. Ou seja, era uma característica da vaca que não tinha utilidade em prever a produção ou a longevidade da mesma. Rufus A. Sibley, Presidente do AJCC, teria dito em 1885 que "se o escudo tivesse algum valor, apenas Guénon sabia o que era".

Em vez de flertar com a fantasia, o AJCC adotou uma escala revisada, que alocava 39 dos seus 100 pontos para o sistema mamário, 49 pontos para pernas e pés e 12 pontos para características “que poderiam ser denominados não essenciais”.

O desenvolvimento e uso de escalas de pontos (sistemas de classificação) encorajou os produtores de leite, tanto na ilha de Jersey quanto nos Estados Unidos, a prestar mais atenção à conformação. Essas escalas estabeleceram uma descrição do “tipo ideal” que poderia ser obtido através do descarte de tipos indesejáveis ​​e do acasalamento de vacas e touros para corrigir ou melhorar traços menos perfeitos.

A logística de exposições na pequena Ilha de Jersey, com seu sistema de três mostras sazonais e uma programação contínua de julgamentos regionais, forneceu ampla oportunidade para os produtores locais compararem seus animais lado-a-lado e contra os melhores. Nos Estados Unidos, no entanto, as exposições por si só não poderiam fornecer as mesmas oportunidades para os mais de 78.000 proprietários de animais Jersey registrados, distribuídos em um país de dimensões continentais.

Em vez de levar a vaca ao juiz, o AJCC desenvolveu um sistema que levou o juiz à vaca. Em 7 de julho de 1932, foi iniciado um programa para “a inspeção e classificação do gado Jersey”. Nos três primeiros anos do programa, um total de 1.227 animais foram classificados, uma comparação muito pálida com as mais de 160.000 vacas classificadas nos EUA somente em 2018 (mais do que a soma de todas as outras vacas Jersey classificadas no mundo inteiro).

O programa de classificação americano é claramente um filho da Escala de Pontos da Ilha de Jersey. Inicialmente, ele estabeleceu 13 categorias para avaliação: aparência geral; estatura; caráter racial; costas, garupa e cauda; pés; pernas; caráter leiteiro; peito e barril; úbere anterior; úbere posterior; tetos; ligamento suspensório; e sistema mamário. 

As vacas examinadas pelos "classificadores" eram classificadas em cada categoria e, em seguida, uma pontuação final era atribuída. Os rótulos de classificação eram Excelente (90 pontos ou mais), Muito Bom (85 a 89 pontos), Bom Mais (80 a 84 pontos), Bom (75 a 79 pontos), Regular (70 a 74 pontos) ou Pobre (menos de 70 pontos).

A classificação serviu a vários propósitos, para Jack C. Nisbet (Secretário da Associação Americana) um dos mais importantes foi a evolução da raça: “Um dos fatores que contribuíram para o grande sucesso deste programa foi o excelente trabalho realizado pelos inspetores oficiais. Seu trabalho, demonstrando e ensinando o tipo correto para os criadores de Jersey em todo o país, tem sido de um valor inestimável para a melhoria da nossa raça”.

A classificação também introduziu um método para remover os animais menos desejáveis ​​do Registro de Rebanho nos EUA. "O candidato deve concordar em entregar ao inspetor oficial os certificados de registro de todos os animais classificados como “Pobres”, observou Gow no início do programa. “Tais certificados devem ser enviados ao AJCC para cancelamento e o registro da futura progênie de tais animais será proibido. Além disso, o requerente deve concordar em não oferecer para registro nenhum bezerro macho de qualquer de suas vacas com mais de cinco anos de idade que possa ser classificado como Regular".

Em geral, as vacas classificadas como “Excelentes” e “Muito Boas” eram mais produtivas que as colocadas nas demais categorias. Idealizado originalmente nos Estados Unidos como uma ferramenta para melhoria da raça, a classificação também serviu para sua promoção. A média da raça para classificação foi publicada em quase todos os relatórios anuais e divulgada como evidência, recomendando a vaca Jersey para os produtores americanos.

Vários fatores contribuíram para o próximo grande desenvolvimento na avaliação de características de tipo do Jersey, principalmente o foco em buscar mais informações por meio da pesquisa científica. Em janeiro de 1979, a associação americana do gado Jersey (em cooperação com a American Guernsey Association) introduziu o Programa de Avaliação de Características de Tipo Funcional Uniforme. Em vez de classificar características que eram subjetivamente definidas, o programa passou a avaliar características biológicas ao longo de uma escala linear.

A avaliação de características de tipo é baseada na premissa de que a vaca pode “dizer” aos criadores o que ela precisa para ser lucrativa. O programa prosseguiu em três etapas:

  1. As características foram selecionadas e definidas com base em seu valor econômico;
  2. As características que haviam sido combinadas anteriormente em uma única categoria passaram a ser medidas de forma independente. Por exemplo, “úbere traseiro” evoluiu para duas características distintas na avaliação: altura do úbere posterior e largura do úbere posterior;
  3. As características foram pontuadas de um extremo biológico para outro, ao longo de uma escala contínua. Por exemplo, as pernas traseiras na visão lateral são pontuadas de muito curvas a muito retas.

O programa em vigor hoje nos Estados Unidos mudou pouco do programa original, adotado em janeiro de 1980. Ele inclui 15 características: Estatura, Força, Forma Leiteira, Ângulo de Garupa, Largura de Garupa, Pernas, Ligamento Anterior, Altura de Úbere, Largura de Úbere, Ângulo de Pé, Profundidade de Úbere, Ligamento Central, Posição dos Tetos Anteriores, Posição de Tetos Posteriores (visão lateral) e Posição de Tetos Posteriores (visão traseira).

O Programa de Avaliação de Tipo Funcional provou ser um dos programas de maior sucesso para a melhoria da raça, tanto do ponto de vista da informação obtida como do seu apoio por parte dos criadores de Jersey. Se pegarmos os gráficos de evolução genética da Raça Jersey na últimas décadas, em comparação com os números da classificação oficial, fica evidente o impacto deste programa em escala mundial.

 

Referêcias:

Jersey Journal

Stephen´s Book of the Farm

Jersey UK

US Jersey

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*Marcelo de Paula. Xavier, produtor rural, formado em Administração de Empresas pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, com Mestrado em Agronegócios pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi presidente da Associação dos Criadores de Gado Jersey do Brasil por dois mandatos.

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