Maria Flavia Tavares


Economista, Doutora em Agronegócios, Proprietária da MFT Consultoria

mariaflavia@mftconagro.com.br

PUBLICAÇÕES

Como gerenciar o risco de preços das commodities agrícolas?

11 de fevereiro, 2020

Autora: Dra. Maria Flávia Tavares*

 

O Agronegócio brasileiro destaca-se no cenário mundial como um grande produtor e exportador de commodities agrícolas como soja, açúcar, café, suco de laranja, carne bovina etc, sendo eficiente na produção destas commodities produzindo a custos mais baixos que os seus concorrentes, além de possuir também um alto índice de produtividade. 

Mas, ao produzir commodities o produtor está exposto a muitos riscos relacionados ao seu processo produtivo e também a fatores externos que influenciam o seu preço. No agronegócio a volatilidade pode ser causada por fatores como a sazonalidade da produção, descasamento entre oferta e demanda, taxa de câmbio e ação dos fundos de hedge.

Mas, o que é volatilidade? É a medida do risco dos preços de um mercado, é a variável utilizada para quantificar os efeitos de risco sobre os preços dos contratos futuros e de opções e medir o nível de oscilação de um mercado. Um mercado calmo possui volatilidade baixa e um mercado incerto possui volatilidade alta.

Alguns fatores causam uma alteração no mercado, levando a uma oscilação dos preços, e um exemplo bem atual é o impacto que o coronavírus está fazendo no mercado levando à uma queda nas bolsas mundiais.

Hoje o mundo está globalizado e um acontecimento na China, que é um importante player mundial, afeta todos os outros países, e aqui no Brasil o impacto é grande devido às nossas relações comerciais com este país.

Os mercados futuros nos últimos anos vêm adquirindo uma grande importância no meio econômico, pois são considerados um instrumento de mercado eficiente para diminuir o risco de variações de preços, dos produtos que apresentam uma alta volatilidade. A comercialização em mercados futuros refere-se, essencialmente, à negociação de contratos, que estão divididos em contratos futuros, a termo e de opções.

A volatilidade dos mercados leva produtores e consumidores de commodities a fazerem hedge para poderem administrar o risco do mercado, sendo que o agente toma determinada posição para evitar ou diminuir variações de preços e, portanto, de sua renda.

Para exemplificar a importância do produtor se proteger no mercado futuro, fazendo um hedge de venda, escreverei sobre o período 2004/05 que foi marcado por uma reversão de tendência, ocorrendo uma grande crise no agronegócio, em especial nos estados da região sul e centro-oeste.

Antes desse período a agricultura brasileira estava passando por uma fase favorável devido a condições externas positivas, havendo uma demanda crescente por commodities agrícolas e preços em alta além de uma taxa de câmbio favorável às exportações. O agronegócio soube aproveitar bem esta fase de prosperidade, sendo que a produção e as exportações aumentaram, assim como a participação do agronegócio na Balança Comercial e no PIB brasileiro.   

Mas, no período 2004/05 tudo mudou e os preços no mercado internacional começaram a cair e o câmbio ficou desfavorável, afetando a lucratividade das exportações. Para prejudicar ainda mais o desempenho do setor ocorreu uma seca prolongada nas regiões Sul e Centro-Oeste, levando a quebras acentuadas na produção de grãos (soja e milho) e prejudicando também a qualidade do produto final.

Todo esse triste cenário causou dificuldades para o produtor rural, que não conseguir pagar o financiamento da sua produção, levando a uma grande inadimplência no setor neste período.

Um dos grandes problemas ocorridos neste período foi a compra de grande parte dos insumos utilizando um dólar valorizado, sendo que a safra foi comercializada quando a situação era inversa (real valorizado). A redução de preços de algumas commodities também agravou a crise de renda do setor.

A existência de mercados futuros permite a gestão de risco de variação de preços para todos os agentes do agronegócio, tanto para produtores, como para comercializadores da produção. Uma gestão integrada de riscos pode proporcionar uma melhoria de renda ao agricultor, e evitar perdas significativas como a que ocorreu em 2005.

Os mercados derivativos representam uma alternativa para administrar a flutuação dos preços das commodities agrícolas, possibilitando também aos participantes desse mercado buscar um ganho financeiro nos seus diversos tipos de operações. Deste modo, os produtos derivativos vêm ganhando importância e dando novos contornos ao mercado de commodities agrícolas e gerando efeitos de curto a longo prazo no setor agroindustrial.

Atualmente ainda existe muito desconhecimento por parte dos produtores rurais e empresas do agronegócio, em relação às operações no mercado futuro. Ainda existe muita desconfiança e muitos acham que as bolsas de mercadorias só são usadas para especulação, mas isso não é verdade, o produtor rural pode proteger o seu preço na bolsa fazendo um hedge de venda. Mas, ele precisa conhecer e calcular o seu custo de produção para que a operação seja vantajosa. 

O mundo está em constante movimento e muitas mudanças ocorrem todos os dias, e eu costumo sempre dizer que o produtor sabe muito bem como produzir a sua commodity, tem altos índices de produtividade, mas ele não sabe vender bem o seu produto. Os derivativos agropecuários são uma ótima maneira para que ele gerencie o seu risco de preço, evitando perdas no futuro.

Para negociar no mercado futuro e de opções ele deverá utilizar uma corretora que negocie nas principais bolsas de commodities como a B3, CME, NY, Londres etc, dependendo da commodity a ser negociada.

Para ajudar o produtor nesta sua jornada em busca do gerenciamento do seu risco de preços, eu gostaria de apresentar um novo simulador de operações, que ajudará o produtor rural no seu processo de negociação. A empresa Cropfinance em breve estará presente no agronegócio e será uma grande aliada do produtor rural, dando apoio e ajudando-o a definir as suas estratégias no mercado futuro e a gerenciar o seu risco de preço.

A lição que podemos tirar da crise no período 2004/2005 é que se o produtor estivesse protegido no mercado futuro, se ele tivesse feito um hedge cambial e um hedge de venda para a soja ele teria passado a crise um pouco mais tranquilo. Naquela época os preços da soja começaram a aumentar muito e os produtores decidiram não vender a sua produção no momento certo e não se protegeram no mercado futuro, mas o mercado mudou e a crise se instalou no setor.

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*Maria Flávia Tavares formada em Ciências Econômicas pela UNESP, tem mestrado em Administração e Política de Recursos Minerais pela UNICAMP e doutorado em Agronegócios pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atua como árbitra na Câmara Arbitral da Bolsa Brasileira de Mercadorias. Atualmente, é diretora da MFT Consultoria em Agronegócios onde trabalha com qualificação profissional no Agronegócio. Também elabora estudos de Inteligência de Mercado e Análises Setoriais e conteúdos para cursos EAD. Recebeu o Troféu Destaque Marketing Rural 2013, concedido pela Comissão das Produtoras Rurais da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (FARSUL).

Lattes: http://lattes.cnpq.br/1129968334019765

Site: www.mftconagro.com.br

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