Victor Breno Pedrosa


Zootecnista, Prof. Dr. de Melhoramento Animal e Estatística

vbpedrosa@uepg.br

PUBLICAÇÕES

A importância dos fatores não genéticos ligados a pecuária leiteira

14 de agosto, 2020

Autores: Dr. Victor Breno Pedrosa* e Dra. Laiza de Souza Lung**

 

Na nossa coluna de melhoramento genético, aqui no Canal do Leite, constantemente abordamos temas diretamente relacionados a genética aplicada a bovinos leiteiros. No entanto, você sabia que os fatores conhecidos como “não genéticos” também são muito importantes para o melhoramento animal? Estes fatores influenciam o processo em duas vertentes principais. A primeira delas está associada ao desempenho propriamente dito, ou seja, exercem influência no aumento ou diminuição da produção animal. A segunda está vinculada a avaliação genética dos rebanhos, em que estes fatores não genéticos, quando não bem controlados, podem resultar em viés dos cálculos de estimação genética. Com isso, entender os detalhes dos fatores não genéticos e o impacto que estes ocasionam tanto no desempenho, quanto na avaliação genética, são fundamentais para um melhor controle dos processos de seleção.

Uma fórmula bastante simples, mas muito conhecida e aplicada pelo melhorista é:

F = G + E

(Em que, F = Fenótipo; G = Genótipo e E = Ambiente)

O fenótipo refere-se a toda característica de interesse do criador, como, produção de leite, gordura, proteína, composto de garupa, pernas e pés, sistema mamário, contagem de células somáticas, DPR, eficiência alimentar etc. Na fórmula é possível perceber que o desempenho das características é dependente tanto da genética (representada pelo genótipo) quanto do ambiente (nutrição, instalações, manejo...) e, que a soma destes fatores resulta em maior ou menor desempenho. Assim, quanto melhor o genótipo e melhor o ambiente, melhores desempenhos produtivos são esperados.

 

Entre os fatores não genéticos, alguns precisam ser conhecidos em detalhe por serem muito importantes para a produtividade animal, como efeito de raça, sistema de produção, estágio da lactação, ordem de parto e período de serviço. No efeito de raça, temos um exemplo clássico da influência média da raça no desempenho produtivo: a raça Holandesa é conhecida por ser mais leiteira e a raça Jersey por apresentar maior porcentagem de sólidos. O sistema de produção também é bastante conhecido, em que sistemas mais intensivos, no geral, resultam em rebanhos de maior produção média do que rebanhos criados em sistemas menos intensivos. O estágio da lactação impacta em produção, em que nas fases iniciais da lactação há maior produção de leite e menor produção de sólidos e, no estágio final da lactação a situação se inverte, resultando em menores taxas de produção e maiores teores de sólidos. A ordem de parto também exerce influência conhecida na produção e na classificação para tipo, em que as maiores produções são obtidas entre a terceira e quarta ordens de parto e o momento mais usual para classificar uma fêmea é na primeira cria. Por fim, o período de serviço afeta indiretamente outros índices dentro do rebanho, em que períodos mais prolongados resultam em maiores intervalos de partos, menor número de bezerros nascidos e menor produção a longo prazo.

Na questão da avaliação genética de bovinos leiteiros, alguns efeitos não genéticos são bastante utilizados para controlar os fatores ambientais e assim, minimizar os impactos do ambiente no cômputo dos valores genéticos. Vale lembrar aqui que o ideal é controlar da forma mais rigorosa possível os efeitos ambientais para que somente a porção da variação genética seja captada nos cálculos que envolvem pedigree + fenótipo. Dentre estes efeitos não genéticos, os mais utilizados nos modelos de avaliação genética para bovinos leiteiros são: fazenda, ano, estação de nascimento e idade da mãe ao parto. A fazenda é efeito primordial a ser controlado pois nela incluem-se, indiretamente, o manejo geral da propriedade, além do microclima no qual a fazenda está inserida. Ressalta-se que o efeito ambiental de fazenda tende a se diferenciar, mesmo para propriedades vizinhas, localizadas sob o mesmo microclima, visto que as instalações, nutrição, dentre outros fatores, distinguem-se para cada propriedade. Os efeitos de ano e estação de nascimento são fundamentais para diferenciar as condições de criação oferecidas aos animais (e assim controlar os efeitos não genéticos associados ao desempenho). Nota-se que animais nascidos em anos distintos, ou mesmo em estações do ano distintas, reagem diferentemente às condições de criação que lhe foram oferecidas (ainda que dentro da mesma propriedade). Estas diferenças são impactantes para o desempenho dos indivíduos, conforme a situação de criação e, desta forma, é importante que os animais sejam agrupados em lotes que nasceram no mesmo ano e estação para que tenham condições de serem comparados geneticamente e não ter alguma “vantagem” ambiental que lhe possa ter sido oferecida. Por fim, a idade da mãe ao parto é um efeito relevante a ser considerado, visto que, dependendo da idade da mãe, diversos aspectos fisiológicos da vaca podem influenciar tanto a gestação, quanto os primeiros momentos de vida da bezerra, os quais podem impactar sensivelmente o desenvolvimento da futura progênie.

Outros elementos não genéticos podem e devem ser considerados, sempre que o selecionador entender que estes efeitos ambientais são relevantes para o desempenho dos animais e assim serem controlados mais rigorosamente. No entanto, é importante que os fatores a serem inseridos nos modelos de avaliação genética sejam cuidadosamente mensurados, com informações confiáveis e que não permitam que elementos duvidosos atrapalhem os cálculos genéticos. Assim, a seriedade e rigor de todo o processo de controle de fatores não genéticos é fundamental para a eficácia do sistema de avaliação. E então amigo, depois dessa prosa, que tal olhar para os efeitos não genéticos com um olhar diferente? Talvez você não soubesse da importância destes elementos para um programa de melhoramento genético, não? Esperamos ter sanado algumas dúvidas a respeito do tema. Um forte abraço e nos vemos no nosso próximo bate-papo, aqui no Canal do Leite.

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*Victor Breno Pedrosa - Professor Doutor na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Possui graduação em Zootecnia, e Mestrado pela USP (Universidade de São Paulo). Tem especialização em Animal Genomics pela University of Guelph (Canadá) e Doutorado em Zootecnia pela USP (Universidade de São Paulo) e pelo Institut für Nutztiergenetik (Alemanha). É coordenador do LeMA - Laboratório de estudos em Melhoramento Animal.

**Laiza de Souza Lung - Supervisora Técnica em Genômica da CRV Lagoa. Possui graduação em Zootecnia pela UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina), Mestrado em Ciência Animal e Pastagens pela USP (Universidade de São Paulo) e Doutorado em Genética e Melhoramento Animal pela UNESP (Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho").

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