Victor Breno Pedrosa


Zootecnista, Prof. Dr. de Melhoramento Animal e Estatística

vbpedrosa@uepg.br

PUBLICAÇÕES

Plano de genotipagem: por quais animais começar a avaliação genômica?

27 de abril, 2021

Autores: Dr. Victor Breno Pedrosa* e Dra. Laiza de Souza Lung**

 

A avaliação genômica é uma realidade não só no mundo como, mais recentemente, no Brasil. A possibilidade de identificação do potencial genético de uma forma mais precisa e confiável, que permite a tomada de decisão de manejo e de seleção antecipada, acelerando assim o progresso genético dos rebanhos, vem conquistando cada vez mais adeptos. Devido a estes motivos, e ao desenvolvimento tecnológico da genotipagem, a avaliação genômica tem se tornado uma ferramenta cada dia mais popular e acessível financeiramente aos criadores. Porém, há algumas dúvidas que sempre são feitas pelos criadores: Por quais animais devo começar? Existe uma categoria que devo priorizar?

Vamos as respostas.

A genotipagem pode ser realizada em todo o rebanho ou apenas em uma parcela (seletiva). O criador que avalia todo o rebanho, consegue dividir os animais baseado nos méritos genéticos em uma curva normal (Figura 1) que representa a totalidade de seus animais; ou seja, é possível identificar os melhores animais (a direita), os intermediários (no centro) e os animais inferiores (à esquerda da curva), de acordo com cada característica de interesse.

A partir daí, pode-se realizar uma divisão por extratos, conforme o potencial genético dos animais. Um exemplo dessa estratificação está representado na figura abaixo. Animais situados no extrato A são os que tem o menor potencial genético, para a característica de interesse. A finalidade desses animais pode ser descarte, uso de sêmen de corte ou uso como receptoras de embriões (estas duas últimas opções estão sendo amplamente utilizadas, como alternativa de potencialização do aproveitamento econômico dos animais inferiores do rebanho).

Animais no extrato B, possuem potencial genético um pouco superior aos animais do extrato A, mas continuam não sendo os melhores do rebanho. Portanto, o destino desses animais pode ser o mesmo dos animais do extrato A, caso não afete a evolução do rebanho devido a necessidade de reposição de fêmeas, bem como, haja possibilidade de investimento, com a garantia do retorno econômico na próxima geração.

Animais no extrato C e D são animais que estão próximos e superiores à média, e, para estes, recomenda-se a utilização de sêmen convencional e sexado, respectivamente. E, por fim, o melhor extrato em nosso exemplo é o E, composto de fêmeas de maior potencial genético, as quais podem ser utilizadas como doadoras, visando multiplicar de forma mais eficiente a melhor genética do rebanho, garantindo rapidez no aumento no ganho genético.   

A genotipagem em massa é o sonho de qualquer criador, mas esse sonho nem sempre é possível logo no início do processo. Nesses casos, a genotipagem seletiva pode ser adotada e a recomendação geral é a priorização das categorias mais jovens, de bezerras e novilhas. Nestas categorias está concentrado o futuro genético da fazenda, bem como o potencial econômico do rebanho. Ao conhecer previamente o potencial genético das fêmeas jovens é possível antecipar as decisões de manejo e seleção, evitando gastos com recria de animais que não trarão o retorno produtivo esperado. Cá entre nós, amigo criador, ninguém quer investir em algo que não tem futuro, não é mesmo?

Em rebanhos que usam biotecnologias reprodutivas, nos quais há um aumento natural da formação de grupos de bezerras irmãs-completas, ou mesmo meia-irmãs, a avaliação genômica se torna ainda mais interessante, uma vez que podemos selecionar aquelas que realmente herdaram os alelos e/ou genes mais favoráveis para os objetivos almejados, como produção e composição do leite, sanidade e fertilidade. Além disso, o ganho em confiabilidade nas categorias jovens, no mínimo, dobrou depois de mais de 10 anos de implementação da avaliação genômica nas raças leiteiras, demonstrando o quão precisa a avaliação genômica vem se tornando (Wiggans et al. 2017).

Por mais que possamos priorizar as categorias jovens, nada impede que o criador avalie animais adultos; ou seja, aqueles que já possuem seus próprios dados de desempenho (lactações encerradas, classificações de tipos realizadas, índices reprodutivos conhecidos etc.). Aqui, vale a máxima de que nem sempre o fenótipo é o retrato fiel da genética. Sabemos que a expressão à campo das características, como a produção de leite e outras, está sob influência da genética + ambiente + interação entre estes fatores e, portanto, para sabermos o potencial genético real de um animal é preciso conhecer muito mais do que somente sua produção. Dependendo da condição ambiental (nutrição, sanidade e manejo) na qual determinado animal está inserido, o desempenho pode ser “mascarado” e os melhores animais de produção à campo podem não ser, necessariamente, os de melhor mérito genético. Por isso, é fundamental conhecer o real potencial genético de cada fêmea, para então, concentrar os esforços na multiplicação desta genética, seja por meio de biotécnicas reprodutivas ou pela intensificação de acasalamentos das melhores famílias.

Conhecer os dados de desempenho e a genealogia do rebanho também nos ajuda a escolher quais animais adultos devem ser genotipados. Quanto maior o número de informações de produção de determinado animal, mais ele consegue se confirmar como indivíduo superior (ou inferior). Com isso, animais que tenham muitas lactações encerradas podem não ser objeto primordial de avaliação genômica, já que minha prioridade será conhecer a genética daquelas fêmeas que ainda são uma incógnita genética e produtiva no rebanho. Ainda, com relação aos dados de pedigree, fêmeas sem dados genealógicos conhecidos também devem ser priorizadas, já que entender melhor as relações genéticas existentes entre os indivíduos, nos auxiliará a conhecer melhor as famílias de elevado potencial genético que, por sua vez, poderão agregar mais valor ao rebanho no longo prazo.

Além dos pontos levantados acima, outros fatores também devem ser considerados no momento de fazer a escolha dos animais a serem avaliados, como: estrutura do rebanho (quantidade de animais jovens e adultos), objetivo de seleção e do rebanho (estabilização ou expansão), uso de biotecnologias reprodutivas, além, é claro, da capacidade financeira inicial de cada criador. Esperamos que o conteúdo deste artigo possa lhe ajudar a tomar importantes decisões relacionadas a avaliação genética do seu rebanho. Se ficar com dúvidas, não deixe de comentar, será um prazer responder e fornecer uma orientação personalizada para a sua realidade. Até a próxima meus amigos!

 

Referência:

Wiggans, G. R. et al. Genomic Selection in Dairy Cattle: The USDA Experience. Annual Review of Animal Biosciences, 5, 309-327. 2017.

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*Victor Breno Pedrosa - Professor Doutor na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Possui graduação em Zootecnia, e Mestrado pela USP (Universidade de São Paulo). Tem especialização em Animal Genomics pela University of Guelph (Canadá) e Doutorado em Zootecnia pela USP (Universidade de São Paulo) e pelo Institut für Nutztiergenetik (Alemanha). É coordenador do LeMA - Laboratório de estudos em Melhoramento Animal.

**Laiza de Souza Lung - Supervisora Técnica em Genômica da CRV Lagoa. Possui graduação em Zootecnia pela UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina), Mestrado em Ciência Animal e Pastagens pela USP (Universidade de São Paulo) e Doutorado em Genética e Melhoramento Animal pela UNESP (Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho").

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