Manter o bezerro com a vaca por alguns dias: risco ou prática possível?
12 de fevereiro, 2026
A separação atrasada vaca–bezerro é um assunto que costuma gerar debate – seja por bem-estar animal, percepção do público ou experiências pessoais. Mas, muitas vezes, essa conversa acontece sem dados controlados. Uma pesquisa (ainda não publicada) do Dr. Adam Beard e da equipe dele na Universidade Cornell ajuda a esclarecer melhor o que acontece quando há contato por poucos dias (e quando o bezerro recebe leite de transição) e como isso afeta o começo da vida do bezerro.
O estudo focou no período perinatal: dos últimos dois meses de gestação até os primeiros dois meses após o parto. Essa fase é considerada um período de grande importância para o desenvolvimento dos animais; ou seja, decisões de manejo nessa etapa podem influenciar seu crescimento e desempenho futuro.
“Nos interessava entender os impactos fisiológicos do fornecimento de leite de transição e também a parte social do contato vaca–bezerro – se é algo viável, se daria para implantar e quais desafios poderia trazer”, explica Beard.
Nós sabemos que o cuidado antes do parto importa, mas fica a pergunta: ficar com a mãe depois de nascer traz um efeito biológico real e importante?
Para responder, os pesquisadores montaram um estudo controlado em que a separação atrasada foi definida como contato livre e sem restrição por 5 dias após o nascimento. Os bezerros desse grupo ficaram com as mães, com contato social total e mamaram à vontade. Eles foram comparados com dois outros grupos em que a separação foi imediata:
- Um grupo recebeu leite de transição da própria vaca;
- Outro grupo recebeu leite integral do tanque (leite do resfriador).
Para garantir que os resultados não fossem influenciados por um começo ruim, todos os bezerros do estudo precisaram cumprir critérios rigorosos de: ingestão de colostro de alta qualidade e bom vigor ao nascer.
A separação atrasada atrapalha a imunidade do bezerro (transferência de imunidade passiva)?
Uma preocupação comum é que a separação atrasada possa prejudicar a imunidade do bezerro. Neste estudo, não prejudicou. Todos os bezerros receberam colostro de alta qualidade (acima de 22% no Brix) logo após o nascimento, e os níveis de anticorpos (IgG no soro) foram iguais, tanto nos bezerros que ficaram com a vaca quanto nos que foram separados.
Isso reforça que o que realmente manda na imunidade é o momento e a qualidade do colostro e não se o bezerro ficou junto ou separado.
Efeito da mamada no crescimento e nos riscos de saúde do bezerro
Nos primeiros cinco dias, os bezerros que mamaram pareciam mais pesados. Mas os pesquisadores observaram que essa diferença sumiu rapidamente após a separação. O ganho de peso inicial provavelmente foi mais “enchimento do trato digestivo” (bezerro mamando muitas vezes ao dia) do que crescimento real de tecido.
Por volta do 7º dia, depois que todos passaram para um manejo de aleitamento padrão, os pesos ficaram parecidos e não houve diferença duradoura.
Sobre saúde, muita gente vê risco sanitário como a principal barreira para manter vaca e bezerro juntos. Mas, neste estudo, não houve ligação entre separação atrasada e maior frequência de: febre ou diarreia.
“Algumas pessoas podem achar que isso deixaria os bezerros mais vulneráveis a desafios de saúde”, diz Beard. “Aqui, a gente simplesmente não vê isso.”
Houve casos de diarreia em todos os grupos, com padrão parecido ao que normalmente se vê em recém-nascidos, independente do sistema de aleitamento.
A equipe acompanhou as futuras novilhas de reposição até 9 semanas de idade. No geral, não houve diferença entre os grupos em:
- Ganho de peso médio diário;
- Peso final;
- Altura de garupa e altura de cernelha; e
- Consumo de alimentação sólida antes do desaleitamento.
Como a mamada afeta a produção de leite da vaca e a saúde do úbere
Enquanto os bezerros mamavam, houve uma queda previsível no leite vendável (afinal, o bezerro estava consumindo parte do leite). Porém, a produção se recuperou em até 24 horas após a separação e não houve prejuízos duradouros no início da lactação.
Um ponto interessante: resultados preliminares sugeriram que vacas sendo mamadas tiveram maior taxa de cura de infecções intramamárias, mas essa análise ainda está em andamento. O estudo também relata que não houve lesões nos bezerros nem incidentes de segurança com pessoas durante o período de contato.
Contato curto entre vaca e bezerro é viável na prática?
“Não encontramos resultados muito diferentes entre leite da vaca, leite do tanque ou leite da vaca com contato vaca–bezerro, mas também não houve resultados piores por ter o bezerro no ambiente com a vaca”, diz Beard.
Essa pesquisa não indica que separar mais tarde seja uma “ferramenta para aumentar desempenho”. Quando o bezerro já recebe colostro excelente e um manejo consistente, os resultados de crescimento e saúde tendem a ser neutros.
A principal mensagem é que o contato por curto prazo pode ser implantado sem efeitos negativos, quando feito em condições controladas. Mostrar que a prática não é naturalmente arriscada ajuda o setor a sair do “achismo” e olhar com mais atenção para a biologia do leite de transição e para o desenvolvimento de longo prazo.
Fonte: Dairy Herd Management
Traduzido e adpatado pelo Canal do Leite
Disponível: https://www.dairyherd.com/news/dairy-production/closer-look-delayed-cow-calf-separation





































