Os 3 pilares de fazendas leiteiras altamente eficientes

Os 3 pilares de fazendas leiteiras altamente eficientes

25 de julho, 2021

O principal segredo para que a  atividade leiteira perdure é a geração de um fluxo de caixa positivo. Porém, no médio e longo prazos, é preciso haver lucro, cobrindo inclusive os custos fixos, como depreciação e a remuneração do capital investido. Para que isso seja possível, é necessário eficiência nos 3 “pilares” do negócio leite: aumento das receitas, volume diário produzido e custos de produção.

Aumento das receitas 

Segundo Mateus Teixeira (zootecnista e coordenador técnico da Cargill Nutrição Animal), o produtor deve buscar aumentar suas receitas, agindo em todos os pontos que forem possíveis dentro da propriedade. Normalmente, a principal receita é o leite vendido, seguida pela venda de animais e - por último - a venda do excedente de volumosos, com algumas variações nessa ordem dependendo da propriedade.

O preço recebido é fortemente impactado pela qualidade, composição e volume do leite fornecido. Portanto, o produtor deve buscar produzir leite com alto padrão de qualidade - com baixos índices de CCS e CPP, bem como altos teores de proteína e gordura - e, lógico, buscar fornecer o leite para laticínios que valorizem essa qualidade. O alto padrão de qualidade indica manejo e sanidade adequados para o rebanho, cenário que contribui para ganhos de eficiência técnica e econômica na fazenda.

Além disso, quanto maior o volume, maior a remuneração. Apesar das importantes mudanças sofridas nos sistemas de pagamentos da maioria dos laticínios, nos últimos anos, o volume fornecido ainda tem grande influência no preço. E não é só isso, ao diluir parte dos custos produtivos, o aumento na escala de produção contribui também com o terceiro pilar da eficiência.

Volume produzido

O aumento da escala de produção depende de dois fatores: o número de vacas em lactação e a produtividade das mesmas. A quantidade de vacas, por sua vez, depende da capacidade de suporte da fazenda, de acordo com a sua capacidade para alojar e alimentar os animais. A referência é conseguir alcançar pelo menos 1 vaca em lactação por hectare na fazenda, considerando - na conta - as áreas de produção de volumosos e as reservas ambientais.

No que tange a produtividade das vacas, obviamente, quanto maior melhor, desde que se respeite o bem estar dos animais e que os custos se mantenham equilibrados. Manejo, conforto, alimentação equilibrada e saúde permitirão aos animais expressarem todo o seu potencial produtivo.

A junção de uma boa taxa de lotação (pelo menos uma vaca em lactação por hectare) e uma boa produtividade farão a produção de leite total diária aumentar e, também, a produtividade por hectare da fazenda melhorar. Este indicador (medido em litros/hectare/ano) tem uma alta correlação com a rentabilidade do negócio. Historicamente, fazendas com altas produtividades por hectare e custos equilibrados, conseguem tornar o negócio leite altamente atrativo, muitas vezes alcançando rentabilidades superiores a 10% ao ano.

Sugere-se:

  • Em sistemas menos intensivos, pelo menos 5.000 litros/ha/ano; e
  • Em sistemas mais intensivos, pelo menos 10.000 litros/ha/ano.

Custos de produção

O último pilar, o dos custos de produção, é sem dúvidas onde o produtor tem maior capacidade de interferência, mesmo que ele não consiga prever ou evitar que os comportamentos dos custos dos insumos impactem em seu negócio. A eficiência mais uma vez é exigida, pois mais importante do que o quanto se gasta é com o quê se gasta.

Atualmente vários projetos e grupos de assistência técnica gerenciam as despesas das propriedades e geram índices de referência que acabam sendo utilizados por todos os produtores. O mais comum é criar uma relação entre as despesas e o percentual da renda comprometido com elas.

"Os principais custos normalmente são o gasto com concentrado, volumoso e a mão de obra. O ideal é que o comprometimento da renda bruta esteja entre 8 e 10% com volumoso, entre 30% e 35% com concentrado e entre 10 e 12% com mão de obra", explica Mateus.

Esses valores são resultados históricos médios de propriedades consideradas economicamente eficientes na atividade, portanto, são possíveis de serem alcançados e contribuem para um resultado econômico satisfatório. Contudo, é necessário se ter cuidado com a interpretação desses índices, que acabam se tornando metas.

Os fatores que impactam esses números sofrem muita interferência regional, por suas características específicas e, por isso mesmo, podem distorcer os indicadores. Por exemplo, o custo da ração de dois produtores pode ser o mesmo e um deles comprometer 30% da sua renda com este custo e o outro 35%. Para isso, basta que o preço recebido pelo leite por eles seja diferente. Podemos erroneamente afirmar que a propriedade que compromete 35% da sua renda com ração é menos eficiente para comprar insumos, porém na verdade a sua bacia leiteira é a que tem menor preço pago ao produtor.

Conclusão

Durante a pandemia, esse quadro ficou ainda mais evidente e complexo, pois os preços do leite subiram muito e os insumos também. As relações entre custos e receitas mudaram e podem estar criando falsas ineficiências nas propriedades. Nesses casos onde a eficiência técnica continuou e os indicadores econômicos fugiram dos valores referência, deve-se ter cautela e lembrar que a atividade leiteira deve ser analisada no longo prazo e não se pode ser conclusivo avaliando curtos períodos com alta instabilidade no mercado. O foco é manter a produção e os bons resultados técnicos para voltar a colher melhores frutos quando o mercado se estabilizar.

Independentemente do cenário de preço e custos não podemos nos esquecer da produtividade dos animais e da produção total de leite. Há muitos anos no Brasil, várias análises estatísticas mostram que o volume de leite produzido por dia nas fazendas é o principal fator de influência para o sucesso econômico da atividade leiteira, sendo que quanto maior o volume diário, maiores as chances de a atividade ser viável e atrativa economicamente.

Se o produtor estiver com o caixa apertado, com os custos acima dos índices ideais, a primeira coisa a se fazer é reduzir despesas em setores que não comprometem a produtividade das vacas, pois a redução da média pode agravar muito a situação. O que o produtor pode fazer é buscar maneiras de tornar todo o sistema mais eficiente.

Uma estrutura que permita uso de menos mão de obra para realizar o manejo, facilitando a limpeza dos cochos, bebedouros e currais, reduz custos. Produzir volumoso em quantidade suficiente e com qualidade, investindo em controle de pragas e nutrição das plantas durante a safra, reduz a dependência da ração para suprir boa parte dos nutrientes utilizados pelos animais, baixando custos com concentrado. Reter na propriedade somente a quantidade necessária de bezerras e novilhas para repor o plantel, logicamente em propriedades com rebanhos estabilizados, reduz custos com alimentação e necessidade de estrutura para animais ainda improdutivos. Essas possíveis ações são exemplos de como cortar custos sem reduzir a produtividade das vacas, que são de fato “quem” paga as contas.

Outro ponto muito importante, e com grande impacto na redução de custos, é a possibilidade de se usar ingredientes variados na nutrição dos animais, focando nos nutrientes exigidos pela categoria que está sendo alimentada e não no alimento em si. Todavia, muitos produtores têm grande resistência em utilizar sorgo, casca de soja, farelo de algodão e uréia, entre outros, com o discurso de que não são ingredientes nobres. Na verdade, os animais possuem exigência por energia, aminoácidos, minerais e vitaminas, não interessando a fonte de onde eles vêm.

Para produtores com maior estrutura de armazenamento de insumos, vale a pena comprar estrategicamente ingredientes como polpa cítrica, uréia, caroço de algodão, DDG, casca de soja e farelo de algodão, pois eles atendem bem a demanda nutricional e possibilitam garantir saúde e produtividade aos animais a custos menores. E para produtores sem tanta estrutura, existe a possibilidade de buscar comprar concentrados direto das fábricas de ração. As fábricas compram grandes volumes de ingredientes e conseguem construir fórmulas eficazes nutricionalmente,  com custos menores que as rações de milho e farelo de soja comumente produzidas nas fazendas.

"O produtor de leite eficiente será o produtor do amanhã. Não há mais espaço para amadores com um mercado tão dinâmico e complexo como o que estamos inseridos", conclui Mateus.

 

Fonte: Agrolink

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