Vaca com CCS alta e cultura microbiológica do leite negativa, por que?

Vaca com CCS alta e cultura microbiológica do leite negativa, por que?

10 de novembro, 2021

A Contagem de Células Somáticas (CCS) das vacas está alta? infelizmente, essa é uma situação rotineira em várias fazendas de produção de leite. 

Primeiramente, é interessante entender a fisiologia da glândula mamária da vaca ao ser infectada por um micro-organismo. Assim que isso ocorre, para tentar combater a infecção, o sistema imune do animal é ativado e uma grande quantidade de leucócitos é direcionada ao leite. Se tudo der certo e os micro-organismos forem eliminados, a CCS volta à normalidade.

Não obstante, a defesa pode não ser suficiente e a infecção pode persistir, causando aumento na CCS, já que continuamente as células de defesa passam a ser eliminadas no leite. Além disto, outras questões também podem interferir na Contagem de Células Somáticas, tais como: idade da vaca, época do ano e estágio de lactação. 

Mas, quais motivos podem levar a um CCS elevada ao mesmo tempo em que a cultura microbiológica da vaca está negativa? Há algumas possibilidades para isso, que podem – inclusive – estar relacionadas à coleta do leite para análise.

Inicialmente, cabe destacar os 3 fatores importantes na escolha do procedimento da coleta: ter um custo acessível, ter boa acurácia e ter agilidade na liberaração do resultado. Aliás, devido a determinadas particularidades específicas de alguns tipos de bactérias (como Staphylococcus aureus) esses pilares necessitam ser ainda mais eficientes.  

É importante frisar, também, que essa bactéria pode ser causa de mastite clínica, mas é uma das principais bactérias encontradas na mastite subclínica, com características de casos crônicos e de baixa resposta aos tratamentos com antibióticos. 

Momento da coleta e cura espontânea 

Pode ocorrer que, no momento da coleta de leite para a cultura microbiológica, o animal já tenha se curado espontaneamente ou esteja passando por um processo de recuperação. Ou seja, a vaca ainda continua com CCS elevada, mas já não há mais a presença do organismo causador de mastite. 

Como exemplo, podemos citar os casos de mastite subclínica cujas bactérias mais comuns são Staphylococcus não aureus e que tem uma expressiva taxa de cura espontânea. A recomendação é observar os próximos testes de CCS, lembrando que não há um tempo certo para que o animal volte a ter CCS nos padrões normais. Essa condição é dependente de cada indivíduo e pode levar até seis meses para a redução.

É importante ressaltar que os laticínios efetuam, normalemente, a CCS do tanque porque ela é um indicativo de qualidade da matéria-prima que eles compram. A indústria também realiza a Contagem Bacteriana Total (CBT), parâmetro relacionado aos cuidados com a limpeza e higiene no processo de ordenha. Já, dentro da fazenda, o produtor geralmente realiza o teste CMT (California Mastitis Test), para tentar identificar as vacas com mastite subclínica.

Congelamento das amostras 

O congelamento das amostras para a cultura de animais com CCS alta pode ser responsável pela morte da bactéria causadora da mastite, uma vez que algumas delas são sensíveis às baixas temperaturas. Quando levanta-se essa suspeita, é importante que as próximas culturas (dessa determinada vaca) sejam executadas com leite fresco ou resfriado por 24h para o descarte dessa hipótese. 

Pesquisas atuais apontam, inclusive, que não há benefícios significativos em congelar amostras para se obter um resultado rápido e com alta sensibilidade. Já é comprovado, por exemplo, que o congelamento reduz o número de bactérias presentes no leite de dois importantes grupos: E. coli e Streptococcus.

A melhor estratégia é fazer a cultura microbiológica das amostras de leite em até 24h após a coleta da amostra e, com isso, a fazenda obterá um resultado rápido e com boa sensibilidade. Caso isso seja, o produtor deve seguir as devidas recomendações, como se informar sobre o máximo de dias que esse material pode ficar congelado, por exemplo. 

Quantidade de colônias na amostra de leite

Alguns micro-organismos, como a bactéria Staphylococcus aureus por exemplo, possuem um padrão cíclico de eliminação. Isso significa que pode ser que ela não apareça sempre no leite e, nesse caso, a quantidade de amostras é importante para reduzir problemas.

Quando fazemos apenas uma amostra, para algumas bactérias, a chance de termos resultados verdadeiramente positivos é de 75%, o que denota uma menor sensibilidade. Já, quando são coletadas duas amostras com intervalo de uma semana entre as coletas, essa porcentagem salta para 95% e com três, para 99%. Quanto mais amostras, mais fidedigna se torna a ferramenta. 

Desta forma, para reduzir a chance de resultados falso-negativos, o produtor deve ficar atento às recomendações de uso da ferramenta. Por placa, nunca devem ser realizadas mais de duas amostras, pois - com menos leite - aumenta-se a possibilidade de resultados não reais. Assim, às vezes a vaca possui a bactéria mas esse fato acaba sendo desconsiderado pela má conduta da investigação.  

Outra possibilidade é que possa ocorrer falha na coleta de leite para a cultura. No dia da coleta, talvez não tenha sido extraída uma amostragem similar de leite de todos os quartos mamários. Nesse caso, pode ser que apenas um quarto mamário esteja infectado e se pouco leite foi extraído dele, quando passa a ser diluído com o leite dos demais quartos, que estão sadios, a quantidade de bactérias na amostra final pode ser muito pequena, inviabilizando o crescimento delas.

Uma outra pressuposição é que as vacas estejam contaminadas com espécies de bactérias que não se desenvolvem em meios de cultura e testes de laboratórios convencionais. O que fazer? Serão necessários exames específicos que inclusive nem todos os laboratórios fazem e o alinhamento dessa demanda com o técnico responsável. Esse plano deve contar com a ajuda de outras evidências e/ou sintomatologias clínicas. Uma espécie de micro-organismo com esse comportamento é o Mycoplasma e também, bactérias anaeróbicas e micro-organismos de crescimento lento. 

Para finalizar, deve ser frisado o importante papel da cultura microbiológica nas fazendas leiteiras a fim de se conhecer os patógenos responsáveis pela mastite na propriedade e assim, direcionar os esforços para resolver o problema e prevenir dores de cabeça futuras! 

 

Fonte: On Farm

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