Vale a pena usar os machos de rebanhos leiteiros para a produção de carne?

Vale a pena usar os machos de rebanhos leiteiros para a produção de carne?

27 de maio, 2022

Os bezerros machos são considerados como um problema na grande maioria das propriedades de leite brasileiras sendo – geralmente – descartados ou sacrificados após o nascimento. Esta situação contrasta com a realidade mundial, que usa esses animais para ampliar a oferta de carne, agregar renda à atividade leiteira e atender exigências legais sobre bem-estar animal.

Segundo o IBGE (2020), em 2020, foram ordenhadas 16,1 milhões de vacas no Brasil. Considerando-se que 50% de suas crias são machos, com taxa de sobrevivência de 90%, estima-se que aproximadamente 7,2 milhões de bezerros de origem leiteira estariam disponíveis para a produção de carne durante o ano.

Assumindo que esses animais seriam abatidos com 450 kg (15 arrobas), estima-se uma produção anual de 108 milhões de arrobas que seriam agregadas à produção, a partir de um programa de aproveitamento de machos de origem leiteira. Com os preços da arroba variando de R$ 320,00 a R$ 345,00 (CEPEA – Abril, 2022), hipoteticamente, o volume anual de capital gerado seria de R$ 34,5 a R$ 37,2 bilhões.

De 2013 a 2017, a produtividade média da pecuária de corte no Brasil foi de 5,57 arrobas por hectare/ano (CNA, 2018). Assim, se forem aproveitados todos os machos de origem leiteira, teríamos a produção de carne equivalente ao que se produz, aproximadamente, em 30 milhões de hectares. Desta forma, a abertura de novas áres para produção de carne poderia ser reduzida.

Além do mais, com o aproveitamento dos machos leiteiros, haveria ainda efeito mitigador na emissão de metano, decorrente da menor demanda de vacas de corte para produção de bezerros. Estima-se que para a geração de 7,2 milhões de bezerros, seriam necessárias em torno de 10,8 milhões de vacas de corte. Assumindo-se que uma vaca produza anualmente de 70 a 100 kg de metano – dependendo da idade, quantidade e qualidade do alimento, raça, manejo, clima, etc – estima-se redução na emissão do gás de efeito estufa (GEE) de 864 mil toneladas por ano.

Sistemas de produção de carne

Nos sintemas intensivos de produção de carne – onde se utilizam dietas com alta porcentagem de grãos ou mesmo dietas exclusivas de grãos – a emissão de metano entérico é reduzida, tanto pelo efeito da alimentação, quanto pela redução na idade de abate dos animais. Esses, quando abatidos precocemente, passariam menos tempo emitindo metano para o meio ambiente.

Por exemplo, se trabalhar com a produção do vitelo na idade de 10 meses e abate com 10 arrobas ou mais de carcaça, dependendo do plano nutricional adotado, enquanto em criação extensiva a pasto, normalmente, levaria pelo menos 20 meses para atingir esse peso. São considerados modelos de produção mais sustentáveis tanto do ponto de vista ambiental, quanto na eficiência alimentar energética e proteica.

Nos Estados Unidos e Canadá, assim como na maioria dos países europeus, praticamente 100% dos machos provenientes de rebanhos leiteiros são criados com o uso da tecnologia de produção de vitelos para carne. Parte das fêmeas da raça Holandesa são acasaladas com reprodutores da raça Angus ou outros (Beef on dairy) e são alimentados com dietas praticamente a base de grãos (90%).

Normalmente utilizam sucedâneos de leite até aos 60 dias, depois um modelo de alimentação denominado V/C:10/90, volumoso (10%), utilizando palhadas ou fenos, dependendo da fase de crescimento e grãos (90%) , para ganhos próximos ou superiores a 1,5 kg/dia, até atingirem 20 a 22 arrobas.  

Como a pecuária leiteira demanda oferta de bezerros ao longo do ano, esse problema seria resolvido, com significativa redução da estacionalidade de produção. Ter oferta frequente de animais precoces com carne de qualidade é o grande gargalo nacional para consolidar mercados externos exigentes.

No entanto, o maior custo de produção de carne via aproveitamento de machos de origem leiteira com base em dietas à base de grãos, apresenta-se como fator limitante para sua expansão e consolidação como tecnologia de aplicação prática e imediata no Brasil. Desta forma, há que se avaliar, além do aspecto ambiental, o aspecto econômico para a produção de carne a partir de machos de rebanhos de leite.

Outro ponto relevante e decisivo para reter os machos leiteiros na propriedade, além da viabilidade econômica, é a aceitação do mercado consumidor nacional. Por isso é imperativo que essas questões sejam esclarecidas para que a técnica possa ser melhor difundida entre os nossos produtores rurais e conscientizar os frigoríficos que o rendimento de carcaça é tão eficiente quanto os machos especializados de corte, com garantia de qualidade da carcaça.

Como opções no aproveitamento dos machos de origem leiteira, com importância na geração de renda, agregação de valor à produção de carne de qualidade e estímulo à mitigação de gases de efeito estufa na pecuária nacional, pode-se considerar os seguintes sistemas:

  1. Confinamento, após um período de alimentação líquida suplementar e abate aos 10 meses com 10 arrobas, como vitelo, carne branca, para atender nichos de mercado próximos aos grandes centros consumidores;
  2. Confinamento, utilizando tecnologia de produção de vitelos para carne por meio de reprodutores de raças europeias (Angus e outros) em vacas da raça Holandesa em parte do rebanho (“Beef on dairy”), obtidos após um período próximo a um ano de alimentação a base de grãos (V/C:10/90);
  3. Confinamento, alimentando todos os machos de origem leiteira a base de grãos (V/V:0/100) após os 60 dias de idade, abatendo-os com 10 a 11 meses de idade com 15 arrobas (“Baby Beef”) ou com 20 a 22 arrobas (“Dairy – Beef”) – sistema americano;
  4. Sistema de cruzamento de machos de corte em parte do rebanho, que não sejam fêmeas de reposição, abatendo os machos e as fêmeas, os quais podem ser terminados em pasto ou em confinamento para abate;

Nesse contexto, é importante que se aprofunde estudos em condições brasileiras sobre estratégias de produção e o aproveitamento de machos para corte provenientes de rebanhos leiteiros.

É com esse objetivo que a Embrapa Gado de Leite e a ABRALEITE estão realizando, nos dias 25 e 26 de maio de 2022, um workshop gratuito (via web), com especialistas, apresentando as experiências dos Estados Unidos, Canadá e Brasil, que comprovem a viabilidade técnica e econômica de produzir e aproveitar machos para corte em rebanhos de leite.

 

Fonte: Milk Point

Adaptado do texto escrito por Duarte Vilela e Rui da Silva Verneque

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