Maurício Santolin


Zootecnista

santolin.mauricio@terra.com.br

PUBLICAÇÕES

A comunicação no agronegócio precisa evoluir

18 de março, 2026

Nas últimas décadas, o agronegócio brasileiro evolui em quase tudo, fez isso com perfeição. Produz mais, produz melhor, inclui tecnologia, melhora a produtividade e responde aos desafios de forma mais eficaz do que outros. O agronegócio é um exemplo de eficiência dentro das porteiras das fazendas. Mas quando ultrapassa essas porteiras e entra na sociedade, algo se perde no caminho: a forma como se comunica. Hoje, há um claro abismo entre o campo e a cidade — não apenas geograficamente, mas, principalmente, conceitualmente. Assim, por mais que o produtor invista, trabalhe e evolua, grande parte da população urbana ainda tem dúvidas, desconfiança — ou até mesmo preconceito — em relação ao agronegócio. E isso não acontece por acaso.

O setor não fez a transição comunicativa junto com a evolução da produção. O agronegócio fala muito internamente e pouco externamente. A informação é compartilhada por produtores, técnicos, cooperativas e empresas. Mas raramente chega ao consumidor final com clareza, consistência ou estratégia. A desinformação está causando um problema maior nesse espaço. Mesmo narrativas simples, distorcidas ou falsas só ganham força onde há uma ausência de uma entidade mais qualificada do próprio setor. Essa fragilidade reside, em parte, na ausência de unidade. O agronegócio é grande, diverso e poderoso; mas a forma como se comunica em seu núcleo permanece fragmentada. Cada elo trilha seu próprio caminho, seus próprios objetivos e interesses. Não há construção de imagem coletiva, mensagem coordenada, estratégia compartilhada. Sem isso, a força se perde. Então, o fato de que a publicidade e a propaganda são de baixo investimento é outro ponto marcante. Assim, mesmo que o setor movimente bilhões, fala como se fosse pequeno. É raro ver campanhas institucionais em grande escala que possam alcançar pessoas fora do agronegócio. Há um espaço que precisa ser preenchido — o espaço na mídia, nas plataformas digitais, na discussão pública.

A comunicação precisa de estratégia, profissionalismo e, naturalmente, investimento por parte do comunicador. Nesse caso, os próprios canais de comunicação do agronegócio muitas vezes estão apenas à margem. Portais, programas, projetos independentes, veículos especializados e instalações especializadas terão um papel importante a desempenhar, mas muitas vezes só podem funcionar com recursos limitados e pouco apoio. Reconhecer esses espaços não é apenas aprofundar a imprensa do setor — é multiplicar a capacidade do agronegócio de contar sua própria história. É difícil não ver também a falta de políticas públicas consistentes que abordem a comunicação e valorizem o setor.

O agronegócio é estratégico para o país, mas há pouco que lhe forneça ações estruturadas nesse sentido para melhor posicioná-lo de forma clara e equitativa aos olhos da sociedade. Comunicação é desenvolvimento também — e deve ser vista como tal. No entanto, há um tesouro que não é explorado: histórias do campo rural como realmente são. Uma ampla gama de pequenos produtores, empresas familiares, novas iniciativas, exemplos de sustentabilidade e eficiência estão espalhados pelo Brasil. Eles não são ouvidos. Não há apoio que eleve essas vozes a uma comunidade que os mova a trazer as histórias, ao público mais amplo além das porteiras das fazendas com seus vizinhos urbanos. É nessa forma de história que o agronegócio se humaniza, se aproxima das pessoas. E enquanto tudo isso acontece lentamente, as fake news estão se movendo rapidamente também. Declarações falsas sobre produção, meio ambiente, bem-estar animal e tecnologia são prontamente espalhadas, muitas vezes sem qualquer contraponto técnico. Combater isso não é mais uma opção — é uma necessidade crucial. E essa luta sempre exigirá presença, consistência e credibilidade na comunicação.

O agronegócio brasileiro não pode se dar ao luxo de simplesmente competir em boa produção. O futuro do setor, por sua vez, depende do grau em que pode ser compreendido, respeitado e valorizado pela sociedade. E isso começa com uma mudança fundamental: comunicar melhor, mais estrategicamente, mais coletivamente, mais de perto e mais próximo das pessoas. Pois, em última análise, não basta ter sucesso. Todos precisam saber disso.

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