Queda no preço do leite pago ao produtor mantém setor apreensivo

Queda no preço do leite pago ao produtor mantém setor apreensivo

Entrevista com Marcos Tang*, presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando).

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Vimos, no último mês, uma queda no preço do leite pago ao produtor. Qual o impacto disso na cadeia produtiva?

Marcos Tang: O produtor de leite, especialmente o gaúcho, está há três anos sofrendo com estiagem, uns mais, outros menos. Com esse problema microrregional o produtor teve que fazer escolhas duras como: optar entre comprar comida, fazer um empréstimo, ou vender as vacas.

A atividade leiteira é uma atividade de médio e longo prazo. Haja visto, uma bezerra nascendo hoje, mesmo que criada com boa nutrição, água, boa sanidade, bem-estar animal, ela vai dar algum retorno em meados de novembro de 2024, ou seja, 24 meses de investimento.

Mas quando vamos vender nosso produto, nós não vendemos, nós entregamos. Nós vamos saber o preço do litro de leite entregue, que saiu hoje de manhã da propriedade, somente daqui a 15 dias, o que antes eram 30 dias. Então, como fazer previsões e investimentos?

O preço do leite caiu super precocemente esse ano. O consumidor já estava pagando caro no mercado e a nossa remuneração continuava lá embaixo.

Com a redução do preço do leite em agosto, setembro e outubro, quase não há lucros. Esse é um momento em que deveria estar sendo criado um caixa e não é o que vemos. Nós éramos autossuficientes em silagem de milho e, agora, tivemos que comprar até mesmo isso.

O preço subiu a conta gotas, mas desceu despencando.

Atualmente, quanto o produtor de leite está ganhando por litro no Rio Grande do Sul e no Brasil?

Marcos Tang: O valor no Rio Grande do Sul vai de R$2,30 a R$3,50, em média R$2,80. Talvez fora do estado, com grande produção, o preço ultrapasse R$3,50 através de contratos. Contratos são importantes, para ter previsibilidade.

No Brasil, o preço de referência gira em torno de R$2,27, mas geralmente a indústria paga mais, visto que o preço de custo básico para a produção é esse.

Qual a expectativa desse preço até o final do ano, tanto do pago ao produtor de leite quanto o preço na gôndola do mercado?

Marcos Tang: No momento das pastagens de inverno no Sul do país (maio, junho, julho e agosto), normalmente aumenta a produção de leite, por isso em setembro cai o preço, devido à maior oferta.

Mas esses valores, que passei na pergunta anterior, eram esperados para dezembro. Agora, considerando um cenário de disponibilidade de pastagens, seria um momento para fazer o caixa, já que os custos de produção estariam reduzidos.

Esperava-se que o valor no final do ano ficaria na casa dos R$3,00, mas a tendência é cair, embora não pudesse cair mais.

Ao longo dos últimos anos, tem-se visto uma saída dos produtores da atividade leiteira. Qual a proporção e o motivo dessa saída?

Marcos Tang: O produtor de leite é o primeiro consumidor do próprio produto. O leite é um produto muito bem fiscalizado, todo dia é coletada uma amostra que é devidamente avaliada, para garantir a qualidade desse laticínio. E isso está correto! Mas tem um investimento e esse custo deve ser repassado.

Os produtores que não conseguem repassar os custos ao preço do leite, acabam saindo da atividade.

Quando eu assumi a Gadolando, haviam 150.000 produtores que entregavam leite, hoje são 60.000 produtores. Nos últimos dois anos, 22.000 famílias pararam de produzir leite. Quem são esses que pararam? Os que não souberam atender a necessidade de escala, ou se adaptaram às normativas, mas, também, são aqueles que não viam perspectiva de lucro dentro da atividade e temos também o problema da falta de sucessão familiar.

Mas, quem continuou na atividade, se especializou e investiu, aumentando a produção. Porém, mesmo os grandes produtores estão tendo dificuldades, não só pelas estiagens dos últimos anos, mas também pelo mercado que não aceita abaixar seu lucro.

A atividade já é demasiadamente trabalhosa e agora o lucro é pouco. O produtor, para ser estimulado a continuar produzindo, precisa ter um mínimo de conforto. O amor pela atividade é importantíssimo, mas, sozinho, ele não se sustenta.

Há sim produtores que saíram por não conseguirem se adequar, ou se modernizar, mas hoje esse não é mais o principal motivo. Hoje, o principal motivo é não ter perspectiva de um lucro mínimo.

Tem alguns produtores que deixam a atividade leiteira e se direcionam para outras culturas, como grãos. Essa é uma opção viável para o produtor de leite que investiu e não está tendo lucro?

Marcos Tang: A maioria das propriedades leiteiras trabalha hoje em cima de áreas acidentadas, onde há pouca opção de cultivar outras culturas. A atividade leiteira em si tem uma das melhores produtividades por hectare, extremamente útil para aproveitarmos de pequenas propriedades, mas o momento em que nos encontramos é que está muito ruim.

Mas quem sai do leite, vai para onde? Talvez, aqui no Rio Grande do Sul, volte para o cultivo do fumo. Alguns produtores optaram por confinar o que tinham, outros que já possuíam algum tipo de cultivo investiram mais em grãos. Mas os produtores com propriedades muito pequenas não têm muito para onde migrar, uma opção seria hortifruti.

Existe alguma regulação do mercado em relação à margem de lucro da indústria?

Marcos Tang: Não. Quando se criou o “Conseleite”, ele deveria ser o conselho paritário que se reúne uma vez ao mês, para definir o preço de referência. A indústria participou dessa conversa, já que eles têm o poder de determinar o preço da matéria-prima, de acordo com a oferta e procura.

Mas e o mercado? Ele aceitaria diminuir a margem de lucro, caso necessário para manter os produtores na atividade? Os produtores não têm o poder de conseguir mudar o preço.

O mercado é selvagem, o produtor e consumidor são vítimas. O leite é um produto extremamente perecível, então o produtor perde o poder de barganha, tendo que aceitar o que a indústria pode pagar. Já o mercado/varejo está muito mais estruturado do que a indústria, por isso eles conseguem barganhar melhor o preço.

A vaca não vive de fotossíntese, o custo de um litro de leite é alto. Além disso, com as condições climáticas não ajudando, ficou tudo muito difícil e mais caro produzir esse ingrediente. Resumindo, não queremos prejudicar o consumidor, mas quando há promoção no mercado, com certeza o produtor está pagando o preço por isso.

Qual é o futuro dos produtos lácteos? Os produtos de alto valor agregado vieram para ficar?

Marcos Tang: Sim, sem dúvidas. Os produtos lácteos são os mais completos nutricionalmente e vieram para ficar. Mas não se sabe se o produtor vai conseguir ficar.

Hoje nossas indústrias se capacitaram somente para fazer o leite UHT, de caixinha, mas, para enxergar mais longe e colocar valor agregado a algum outro tipo de produto, é preciso investimento e planejamento estratégico da indústria.

Temos as importações como uma opção para esse problema de saída da atividade, mas isso vai durar quanto? Quando a gente não produz o próprio produto, ficamos expostos a riscos. É preciso manter o produtor de leite vivo.

Por isso é preciso ter conhecimento. O produtor precisa investir e, no sentido da cadeia, precisamos dividir os ônus para manter todos os elos dessa cadeia vivos!

 

*Marcos Tang: produtor rural, proprietário da Granja Tang (Farroupilha-RS), uma referência na criação de gado leiteiro no Rio Grande do Sul e presidente da Associação de Criadores de Gado Holandês do Estado (Gadolando), formado em medicina pela Universidade de Caxias do Sul. Ele atua, também, como médico em Porto Alegre, na Santa Casa de Misericórdia e no Hospital Moinhos de Vento.

 

Fonte: Scot Consultoria

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