A cinco metros da superfície, nasce um dos queijos mais autorais do Brasil
16 de maio, 2026
O queijo artesanal brasileiro já não disputa espaço apenas pelo sabor. Em Goiás, uma fazenda transformou uma caverna subterrânea em parte central da experiência e descobriu que maturação, narrativa e identidade regional podem valer tanto quanto a própria receita.
A cinco metros de profundidade, em Guapó (GO), centenas de peças descansam em prateleiras de madeira enquanto fungos naturais ajudam a criar aromas, texturas e cascas únicas. O ambiente mantém umidade próxima de 80% e temperatura entre 14°C e 16°C, condições consideradas ideais para a maturação lenta dos queijos.
O detalhe curioso virou diferencial competitivo. A estrutura subterrânea hoje abriga até 8 mil peças e se tornou símbolo da transformação da propriedade da família de João Vicente Borges, que decidiu mudar o rumo da fazenda em 2017.
Até então, a tradição estava concentrada na pecuária leiteira. Depois da virada, o foco passou a ser produção artesanal premium. Atualmente, a propriedade trabalha com cerca de 50 vacas das raças pardo suíço e holandesa, processando aproximadamente 600 litros de leite por dia.
O resultado aparece não apenas na produção mensal de cerca de 2 mil queijos, mas também na criação de receitas que fogem do convencional. Um dos produtos fica imerso em cerveja preta durante 48 horas para ganhar coloração caramelizada e sabor mais intenso. Outro é flambado no whisky antes de maturar por 60 dias.
Há ainda o queijo inspirado no pequi – mesmo sem utilizar o fruto na composição – numa tentativa de traduzir sabores e referências do Cerrado em uma experiência gastronômica mais sofisticada.
A combinação entre técnica artesanal e identidade regional acompanha um movimento cada vez mais visível no Brasil: pequenos produtores tentando sair da lógica de commodity para disputar mercado pelo valor agregado. Nesse cenário, o queijo deixa de ser apenas alimento e passa a funcionar também como experiência, turismo e posicionamento de marca.
A estratégia ajudou a produção de Goiás a conquistar premiações nacionais e internacionais. Com o Selo Arte, os produtos também ganharam espaço fora do estado, chegando a consumidores interessados justamente em itens mais autorais e menos padronizados.
Mesmo com os planos de expansão, a fazenda pretende manter o principal elemento que chamou atenção do público: a maturação natural em caverna, cercada por fungos benéficos, clima controlado e um forte apelo de autenticidade.
No fim, talvez o segredo não esteja apenas no queijo. Mas na capacidade de transformar leite, território e história em algo que as pessoas tenham vontade de provar...e de contar.
Fonte: eDairyNews







































