A nova matemática do leite nos EUA: Por que a carne e os sólidos estão redefinindo lucros
26 de janeiro, 2026
Por décadas, a saúde financeira de uma fazenda leiteira nos EUA dependia exclusivamente do pagamento do leite. Mas, com o avançar de 2026, uma mudança radical nas fontes de receita está transformando a forma como as fazendas americanas mais modernas permanecem no azul. Segundo Curtis Bosma, da HighGround Dairy, o setor está navegando atualmente em uma "tempestade perfeita" de oferta elevada, demanda crescente por proteína e um mercado de carne que transformou um antigo subproduto em um pilar principal de lucro.
O "Reembolso do Corte"
Historicamente, a venda de animais para o corte representava cerca de 5% da receita total de uma fazenda de leite nos EUA, sendo a carne um subproduto menor da manutenção do rebanho em lactação. Hoje, esse número saltou para 20% ou até 25%. Com bezerros de cruzamento (leite x corte) de um dia de vida alcançando até US$ 1.200, o "fluxo de receitas da carne" é agora o principal gerador de margeme para muitas operações.
"Existem vacas no rebanho hoje que podem não merecer economicamente um lugar baseando-se apenas na sua produção de leite", diz Bosma ao apresentador do "AgriTalk", Chip Flory. "Mas os produtores as mantêm porque estão prenhas de um bezerro de pelagem preta (de corte). É essencialmente um reembolso que mantém a vaca no barracão até que esse bezerro chegue."
Um salto nos sólidos, não apenas no volume
Embora os números principais de produção de leite estejam em alta, mostrando um crescimento massivo de 4,5% em relação ao ano anterior (até novembro), a verdadeira história está na composição desse leite.
- Mais de US$ 11 bilhões em investimentos: Novas fábricas de processamento de última geração estão entrando em operação e elas não buscam apenas água; elas querem sólidos no leite. Gregg Doud, presidente e CEO da National Milk Producers Federation, afirma: "Não há nada parecido na história da pecuária nos EUA, de qualquer commodity, em qualquer lugar do mundo."
- O ganho em sólidos: Os produtores estão investindo em genética e nutrição para obter níveis mais altos de gordura e proteína. Quando se leva em conta esse ganho nos sólidos, o “valor alimentar” real que chega ao mercado está crescendo mais rapidamente do que o volume de leite líquido bruto. Os níveis de gordura do leite bateram novos recordes por quatro anos consecutivos (com média nacional de 4,23% em 2024) e o teor de proteína atingindo 3,29%, com base em dados do Federal Milk Marketing Order. O lado negativo dos altos níveis de gordura do leite é que isso tem ocorrido às custas da proteína. Segundo o CoBank, as porcentagens de gordura do leite no leite dos EUA vêm aumentando em um ritmo duas vezes maior do que o da proteína, o que tem gerado desafios para os produtores de queijo.
A geografia do crescimento: A ascensão de Dakota do Sul
Bosma destaca o estado de Dakota do Sul como o principal motor dessa expansão. Atraídas por um ambiente favorável aos negócios, menores entraves ambientais e alimentação mais barata, famílias de estados menos amigáveis (como a Califórnia) estão se mudando para as Planícies.
Os efeitos do "GLP-1"1 e do Leite Integral
No lado da demanda, o setor lácteo está encontrando nova vida em fatores inesperados:
- A Tendência GLP-1: Com o uso de medicamentos para perda de peso (como Ozempic), o foco do consumidor mudou para a "eficiência de ingestão". Eles buscam proteínas de alta qualidade para manter a massa muscular e os laticínios – especificamente o whey e derivados proteicos – são vistos como a proteína "mais limpa" disponível.
- Leite Integral nas Escolas: O retorno do leite integral à merenda escolar é visto como uma vitória do setor. Embora não mude o volume total de imediato, planta a semente para consumidores fiéis ao oferecer um produto com sabor superior.
Navegando com o leite a US$ 152
Com os contratos futuros de Classe III3 oscilando em torno de US$ 15, a pressão é grande. Bosma aponta que os produtores eficientes sobrevivem explorando receitas extra-leite: carne, créditos de carbono de biodigestores e energia solar.
"Se você conseguir acessar essas fontes adicionais, pode não sentir uma crise de fluxo de caixa até que o leite chegue a US$ 12", diz Bosma. "Mas para aqueles que dependem apenas do leite, US$ 15 é um patamar muito difícil."
Notas:
1 - GLP-1 é um hormônio natural que controla açúcar no sangue e apetite. Medicamentos como Ozempic e Mounjaro são versões sintéticas usadas para tratar diabetes e obesidade. O impacto no setor lácteo vem da mudança no comportamento do consumidor: menos comida, mas com maior demanda por proteínas de alta qualidade, como as do leite.
2 - Na prática, esse preço funciona da seguinte forma: U$ 15,00 por cwt (100 libras). Isso é equivalente a U$ 15,00 por 45,36 kg de leite ou, convertendo para uma medida mais familiar, US$ 0,33 por kg de leite. Considerando uma densidade de ~1,03 kg/L) seria aproximadamente U$ 0,34 por litro.
3 - Nos EUA, de forma resumida, as "classes de leite” nas "Ordens Federais" estão descitas a seguir. Para maiores detalhes leia este artigo.
- Classe I (leite fluido): Leite fluido para beber;
- Classe II (produtos soft): Sorvete, iogurte, queijo cottage, coalhada;
- Classe III (queijo e soro): Maioria dos tipos de queijo e soro de leite (whey);
- Classe IV (manteiga e produtos secos): Manteiga e leite em pó.
Fonte: Dairy Herd Management
Traduzido e adpatado pelo Canal do Leite
Disponível em: www.dairyherd.com/news/business/new-dairy-math-why-beef-and-components-are-redefining-milk-check






































