Demanda brasileira dita o ritmo do leite no Mercosul

Demanda brasileira dita o ritmo do leite no Mercosul

06 de julho, 2026

Durante anos, o debate sobre o mercado lácteo brasileiro foi dominado por uma narrativa recorrente: Argentina e Uruguai estariam “empurrando” leite para o Brasil, pressionando os preços internos e aumentando a concorrência para produtores e indústrias nacionais.

Mas uma análise apresentada no Foro INALE, no Uruguai, propõe uma leitura completamente diferente da dinâmica regional.

Segundo o consultor argentinoTeo Zorraquín, não são os países vizinhos que determinam o fluxo comercial do Mercosul. É o comportamento da demanda brasileira que acaba definindo o ritmo do mercado regional.

“Quando o Brasil precisa, ele suga leite da Argentina e do Uruguai. Parece que é a demanda brasileira que traciona o mercado.”

A afirmação muda o foco da discussão. Em vez de enxergar o Brasil apenas como destino das exportações, a análise coloca o país como o principal regulador da oferta e da demanda dentro do bloco.

Brasil tornou-se o grande motor do Mercosul

Na prática, a lógica apresentada é simples.

Sempre que a produção brasileira não consegue atender plenamente ao consumo interno, abre-se espaço para as exportações argentinas e uruguaias. Esse movimento melhora a remuneração dos produtores vizinhos e contribui para equilibrar todo o mercado regional.

Ou seja, o comércio deixa de ser explicado apenas pela necessidade de vender excedentes e passa a refletir a força do maior mercado consumidor do Mercosul.

Essa visão também ajuda a compreender por que, mesmo em períodos de maior produção na Argentina e no Uruguai, os embarques para o Brasil continuam desempenhando um papel estratégico para ambos os países.

O Mercosul ainda é deficitário em leite

Outro ponto destacado durante o evento é que o Mercosul permanece estruturalmente deficitário em leite.

Esse cenário significa que, em momentos de maior consumo ou de redução da oferta brasileira, o comércio intrabloco continua sendo uma ferramenta importante para garantir o abastecimento e reduzir desequilíbrios.

Para o setor industrial brasileiro, essa característica explica por que as importações seguem fazendo parte da dinâmica normal do mercado, especialmente em períodos de maior necessidade.

Preços devem permanecer firmes

A análise também apresentou perspectivas para os próximos dois anos.

Segundo Zorraquín, existe elevada probabilidade de que o preço recebido pelos produtores argentinos permaneça entre US$ 0,35 e US$ 0,40 por litro durante os próximos 24 meses. No Uruguai, os valores tendem a permanecer aproximadamente 10% acima desse intervalo, impulsionados pelo maior teor de sólidos do leite.

Embora essas projeções se refiram aos países vizinhos, elas servem como referência para o mercado brasileiro, já que influenciam diretamente a competitividade das importações e a formação de preços na região.

Geopolítica entra na equação

O especialista também alertou que o mercado internacional continua cercado de incertezas.

Caso os conflitos no Oriente Médio se prolonguem, a redução dos estoques globais poderá sustentar novas altas nos preços internacionais dos lácteos.

Ao mesmo tempo, fez uma ressalva importante: historicamente, períodos de recessão econômica global nunca foram acompanhados por ciclos favoráveis para o setor leiteiro, o que recomenda cautela nas projeções de médio prazo.

Um novo olhar sobre as importações

Mais do que discutir volumes importados, a análise apresentada no Foro INALE convida a uma mudança de perspectiva.

O Brasil continua sendo o maior mercado consumidor de leite da América do Sul e, justamente por isso, suas necessidades de abastecimento acabam influenciando decisões de produção, investimento e comércio em toda a região.

Em vez de enxergar apenas um fluxo de leite entrando pelas fronteiras, talvez seja mais correto observar quem realmente determina o ritmo desse movimento. E, segundo a análise apresentada no Uruguai, esse papel pertence cada vez mais à demanda brasileira.

 

Fonte: eDairyNews

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