O paradoxo leiteiro nos EUA: Mais vacas com menos reposição

O paradoxo leiteiro nos EUA: Mais vacas com menos reposição

22 de fevereiro, 2026

Por que o rebanho leiteiro dos EUA cresce mesmo com o menor número de novilhas da história?

O "manual tradicional" da pecuária de leite está sendo reescrito em tempo real. Por décadas, a conta era simples: descartar vacas de baixa performance, criar o maior número possível de novilhas de reposição e focar quase exclusivamente no volume de leite fluido. Mas essa equação está sendo invertida nos Estados Unidos, graças à uma alta histórica no mercado de carne e à revolução genômica que está mudando a biologia do rebanho americano.

De acordo com Abbi Prins, analista do CoBank, o setor atravessa uma mudança estrutural onde o valor de uma vaca não está mais ligado apenas à sua produção de leite, mas também ao seu papel como "barriga de aluguel" para o mercado de carne de alto valor. Esse movimento, chamado de beef-on-dairy (cruzamento de vacas de leite com touros de corte), está redefinindo os estoques de novilhas, as estratégias de descarte e a própria composição do leite que chega às indústrias.

O paradoxo das novilhas de reposição

Atualmente, o estoque de novilhas de reposição nos EUA é um ponto de preocupação. Historicamente, poucas novilhas seriam um sinal de contração na produção de leite. No entanto, o rebanho leiteiro americano segue robusto, com mais de 9,5 milhões de cabeças (o maior nível em mais de 30 anos).

O motivo desse paradoxo não é apenas o fato de o produtor estar segurando vacas velhas; é uma mudança estratégica na visão sobre a genética de elite:

"Beef-on-dairy tem tido um papel enorme no patamar atual dos estoques totais", explica Prins. "Os produtores de leite descobriram que, quando se trata de lucratividade, eles inseminam seus animais de elite para [obter novilhas de] reposição e todo o resto com [sêmen de] corte. Você recebe um preço melhor vendendo esses animais cruzados para o corte do que criando uma novilha de reposição extra que talvez nem precise."

Essa estratégia reescreveu o manual tradicional de descarte. No passado, se uma vaca não cobria seu custo de alimentação ou produzia pouco na ordenha, ela ia direto para o abate. Hoje, o bezerro preto no seu útero – que frequentemente vale mais de US$ 1.400 – funciona como uma apólice de seguro de alto valor.

"A conta não favorece mais o descarte, por causa do patamar atual do mercado de carne", diz Prins. "O valor desse bezerro beef-on-dairy supera o de simplesmente vender a vaca para abate. É por isso que estamos mantendo as vacas por mais tempo no rebanho."

Vacas Holandesas com sólidos de Jersey

Embora o rebanho esteja ficando mais velho, ele está se tornando incrivelmente mais eficiente em termos de sólidos (gordura e proteína). O setor observa que as vacas Holandesas modernas estão começando a produzir leite com teores de sólidos comparáveis aos da raça Jersey.

A genômica permitiu focar em componentes que agregam valor direto no pagamento do leite. Mesmo com preços de leite pressionados, os produtores estão adicionando margem ao negócio através dos bezerros de corte e da valorização dos sólidos.

Para os próximos 6 a 12 meses, a previsão é de um "otimismo realista". Espera-se uma redução lenta e estratégica do rebanho, o que deve ajudar na recuperação dos preços do leite ao reduzir o excesso de oferta.

Quanto ao mercado de carne, a força do cruzamento (beef-on-dairy) deve durar pelo menos mais dois anos. Mesmo que os pecuaristas de corte comecem a recompor seus rebanhos, isso retira fêmeas do abate imediato, mantendo os preços da carne (e dos bezerros de origem leiteira) elevados.

A conclusão para o produtor

A pecuária é cíclica, mas os fundamentos atuais são sólidos. Se olharmos apenas para a margem "leite sobre o custo alimentar", o cenário parece difícil. Porém, ao incluir a receita do beef-on-dairy, a saúde financeira das fazendas muda de figura.

Com investimentos massivos em novas plantas de processamento e custos de alimentação estáveis, a indústria de leite está em uma posição privilegiada para se recuperar sem precisar "virar a mesa", apenas ajustando a estratégia entre leite e carne.

 

Fonte: Dairy Herd Management

Traduzido e adaptado pelo Canal do Leite

Disponível em: https://www.dairyherd.com/news/business/why-u-s-milking-herd-growing-despite-record-low-replacement-numbers

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