Marcelo de Paula Xavier
Editor do Canal do Leite, Administrador de Empresas e Mestre em Agronegócios
canaldoleite@terra.com.br
A troca inesperada de uma vaca destinada a brilhar: Como CHERRY PP chegou ao topo da raça Jersey
25 de fevereiro, 2026
Escrito por Marcelo de Paula Xavier, M.Sc.*
A mais nova vaca Jersey classificada EX-96%1 nos Estados Unidos é JX HAWARDEN SHOOTOUT CHERRY {6}-PP (foto acima).
Com essa pontuação fantástica, CHERRY é atualmente a fêmea mocha homozigota (PP) com a maior pontuação na raça. De propriedade de Eric Silva – dono do criatório SUNSET CANYON JERSEY, no Oregon – ela foi criada em Idaho por HAWARDEN JERSEYS.
Filha de JX KASH-IN SHOOTOUT {5}-P-ET (pedigree abaixo), ela carrega três gerações de animais calssificados EX-90% ou mais, além de vacas com produções que ultrapassam as 20.000 libras de leite (lactações acima de 9 mil kg em 305 dias), expressando todo potencial de uma genética sólida e comprovada.

A história de CHERRY PP na fazenda SUNSENT CANYON é quase inacreditável. No ano passado, Seth Isrealsen2 telefonou para Eric Silva para saber se ele teria algum touro Jersey disponível para venda. Wynn Neilson (dono do criatório HAWARDEN) precisava de um, pois havia se desfeito do anterior depois que o animal “ficou agressivo demais para ser manejado”.
Como sempre mantém alguns touros jovens na propriedade, Eric Silva prontamente enviou os pedigrees dos animais disponíveis. Na semana seguinte, Wynn entrou em contato com ele para confirmar qual touro escolhera e perguntou se existiria a possibilidade de Eric fazer a entrega pessoalmente. Pouco depois, chegou outra mensagem, mais direta e com uma “segunda intenção”:
“Eric, eu quero que você mesmo faça a entrega do touro, porque eu tenho uma vaca aqui, que eu quero trocar pelo touro. Ela é muito doce e mocha homozigota, ela precisa ir para um lugar onde as pessoas possam vê-la e [precisa] ter muitos filhos”, escreveu Wynn.
Diante da reputação do rebanho “HAWARDEN”, a proposta foi aceita sem que se exigissem mais detalhes sobre a vaca. Eric conta que, poucos dias depois, pegou a estrada rumo a Idaho, nas proximidades da divisa com Utah. Ele acabou chegando tarde naquela noite, foi para um hotel e telefonou para Wynn avisando que chegaria na sua fazenda por volta das 4 da manhã no dia seguinte.
Ainda de madrugada, com um café rápido para espantar o sono, Eric seguiu até a propriedade. Wynn já estava de pé...ordenhando. Conversaram bastante – e com paixão – sobre a admiração comum que esses dois criadores fantásticos tem pelo gado Jersey. Mas a realidade da viagem acabou se impondo: havia 14 horas de estrada pela frente e era preciso voltar.
O touro foi descarregado e Wynn Neilson caminhou até o celeiro com um cabresto na mão, chamando CHERRY pelo nome. Não demorou para ela aparecer junto à cerca. Trataram de embarcá-la, apertaram as mãos e Eric partiu.
Naquele momento, porém, não se podia ver a vaca com clareza. A escuridão ainda cobria o curral e ela mal se deixava distinguir na penumbra. Só muitas horas depois, ao parar para abastecer, veio o primeiro olhar realmente atento. Naquele momento, Eric Silva teve a verdadeira dimensão do que havia sido colocado no seu trailer: JX HAWARDEN SHOOTOUT CHERRY {6}-PP, hoje reconhecida como uma das vacas Jersey mais valiosas do mundo.
Vacas Jersey mochas fazendo história
Um comitê oficial de 3 avaliadores da Associação Americana do Gado Jersey (AJCA, na sigla em inglês) avaliou recentemente CHERRY PP e concluiu que ela merecia a pontuação EX-96%. Isso fez com que ela se tornasse, conforme mencioando anteriormente, a vaca mocha homozigota com a maior pontuação da raça Jersey (e possivelmente de qualquer raça leiteira).
Mais do que um fenótipo espetacular, CHERRY PP tem uma produção de leite muito consistente. Já são 7 lactações oficiais completas, sendo que ela produziu mais de 9.500 kg de leite em 3 delas e obteve um máximo de 10.043 kg em 305 dias, com 4,80% de gordura e 4,02% de proteína.
Essa rara combinação de longevidade produtiva e alto tipo faz com CHERRY PP seja sucessora natural de mais uma lenda que, décadas antes, também desafiou os limites da genética mocha na raça Jersey.
Em 1991, outra vaca Jersey mocha (mas não homozigota) atingiu essa classificação fantástica (EX-96%): MAPLEROW MERCURY ARON-PTL-P, a qual foi Grande Campeã Americana em 1986. Criada na fazenda MAPLEROW3, ela foi também a primeira vaca Jersey a atingir a produção recorde de 300.000 libras de leite. Além disso, em sua última lactação oficial (registrada em 1997), ela produziu 21.352 libras de leite, quando tinha impressionantes 17 anos de idade.
Com uma história quase cinematográfica, um excelente desempenho produtivo e uma classificação fantástica, CHERRY PP reafirma o quanto a raça Jersey ainda é capaz de surpreender. Sua ascensão ao seleto grupo das EX‑96% não representa apenas um marco individual, mas o fortalecimento de uma linhagem mocha que há décadas inspira avanços, desde a lendária MERCURY ARON até as gerações mais novas que já começam a carregar seu legado.
Notas:
1 - Uma classificação de 96 pontos (EX-96%) é muito elevada, praticamente o máximo possível de 97 pontos. Muito poucas vacas leiteiras (de qualquer raça) conseguem chegar nesse patamar de "beleza fenotípica".
2 - Seth Isrealsen é o técnico de campo da Associação Americana do Gado Jersey (AJCA) responsável por registrar e classificar os animais em estados como Califórnia, Idaho e Oregon.
3 - Donald Wright (Don) – o dono da fazenda MAPLEROW JERSEYS, em Vermont – nasceu com pouca visão e acabou ficando 100% cego durante seu primeiro ano de faculdade. Assim, ele voltou para a fazenda da família e aprendeu a trabalhar na propriedade, ordenhando o rebanho e mantendo os registros dos animais mesmo sem enxergar nada.
Os vizinhos sabiam quando Donald estava ordenhando sozinho, porque o celeiro ficava completamente escuro, em meio ao zumbido das máquinas. Seu irmão Ed fazia a maior parte do trabalho no campo, enquanto Don podia ser encontrado esfregando a sala do leite e o tanque de refrigeração, empurrando a comida para mais perto e ordenhando as vacas.
Donald mantinha os registros do rebanho em braile usando gravações em fita que o veterinário fornecia para ele. Ele identificava se cada vaca estava na baia correta pelo número ao redor do pescoço e as alimentava de acordo. Depois de enfardar o feno para o rebanho, ele realizava as inseminações de qualquer vaca que estivesse em cio naquele dia.
Donald e seus irmãos receberam o prêmio Master Breeder em 1995. Donald e Ed já faleceram, mas fica evidente que Donald viveu uma vida de propósito e orgulho por meio de seu gado, apesar da falta de visão.
___________________________________________________________________________________________________________
*Marcelo de Paula Xavier, formado em Administração de Empresas pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, com Mestrado em Agronegócios pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foi presidente da Associação de Criadores de Gado Jersey do Brasil por 2 mandatos consecutivos e atualmente é editor do Canal do Leite.








































