Victor Breno Pedrosa


Zootecnista, Prof. Dr. de Melhoramento Animal e Estatística

vbpedrosa@uepg.br

PUBLICAÇÕES

Como interpretar a PTA?

23 de janeiro, 2020

Autores: Dr. Victor Breno Pedrosa* e Dra. Laiza de Souza Lung**

 

PTA: valor absoluto ou comparativo? O que muda com a genômica?

Ainda existe muita confusão no momento de interpretar os resultados da avaliação genética, que - para os bovinos leiteiros - é bastante conhecida por PTA. Com isso, muitos criadores têm focado apenas nos valores absolutos de cada característica, como produção de leite, sólidos, pontuação final para tipo, dentre outras. O fato é que não é recomendado selecionar apenas pelo valor de produção de um animal, já que o somatório total de produção depende não apenas dos fatores genéticos, mas também da nutrição, instalações, sistema de produção, manejo de ordenha, e outros tantos que chamamos de “efeitos de ambiente”. Por isso, selecionar os animais somente pelo fator genético (PTA), “isolando” os efeitos ambientais, torna a seleção mais assertiva.

Mas qual a forma correta de interpretar a PTA?

A própria definição de PTA (Predicted Trasmitting Ability, ou em sua tradução: Habilidade Prevista de Transmissão), colabora para sua interpretação. A Habilidade Prevista de Transmissão é a capacidade genética que o reprodutor (aqui leia-se touro ou vaca) possui de transmitir determinada característica aos seus descendentes. A PTA identifica o mérito genético do indivíduo, principalmente do que se espera de sua transmissão genética para a progênie. Por exemplo, se os touros A e B abaixo possuem PTA para produção de proteína (kg) de +5kg e +15kg, respectivamente, podemos esperar que a as filhas do touro B produzam em média 10kg a mais de proteína do que a média das filhas do touro A.

Para outras características, o raciocínio é o mesmo, por exemplo, vamos supor que os touros C e D possuam PTA para produção de leite de +500kg e +400kg, respectivamente. A diferença entre estes dois touros é de 100kg, indicando que as filhas do touro C produzirão, em média, 100kg de leite a mais, por lactação, do que as filhas de D. Vale ressaltar que os exemplos acima são válidos para animais criados sob as mesmas condições ambientais, ou participantes do mesmo programa de avaliação genética.

Quando uma nova avaliação genética é disponibilizada, o valor absoluto dos touros pode mudar, mas o que prevalece é a interpretação comparativa entre os touros dentro da mesma avaliação, independente dos valores absolutos de mérito genético individual. Assim, não devemos nos preocupar se um animal “X” apresentava PTA de +6kg, para determinada característica, em uma avaliação anterior e, para esta mesma característica, em uma avaliação subsequente, o animal “X” passou a apresentar PTA +4,5kg. Isto não representa que ele “perdeu” -1,5kg de uma avaliação para outra, pois o potencial genético intrínseco a ele continua o mesmo. O que mudou é que a cada avaliação genética a base de comparação se modifica (saída ou, principalmente, entrada de novos animais na avaliação), o que faz com que a média dos animais comparados para todas as características se modifique, ocasionando a mudança pontual na PTA. Porém, o mais importante é que este mesmo animal “X”, independente da avaliação, poderá ser comparado com outros animais, dentro da mesma avaliação genética, e, é justamente a diferença existente entre os animais comparados, como observamos na ilustração acima, é que deve ser considerada no momento da escolha de um reprodutor.

E quando a avaliação é genômica?

Na era genômica, as avaliações genéticas tradicionais passaram a contar com uma nova fonte de informação: o DNA por meio dos SNPs (single nucleotide polymosphisms). Esta inclusão não impacta em nada a forma de interpretar os resultados, a única diferença é a designação que muitos programas de melhoramento adotam para diferenciar PTAs tradicionais das genômicas, por exemplo gPTA. Adicionalmente, a introdução da informação do DNA na avaliação do mérito genético trouxe inúmeros benefícios, dentre os principais: aumento da acurácia (confiabilidade), diminuição no intervalo de gerações (seleção de animais mais jovens) e aumento na intensidade de seleção (possibilidade de aumento da pressão de seleção). Todos estes fatores, isoladamente ou em conjunto, propiciam o aumento do ganho genético e, com isso, o progresso de seleção foi acelerado, resultando em maior e mais rápido retorno econômico ao criador.

Nos vemos na próxima coluna de melhoramento genético, aqui no Canal do Leite. Um grande abraço!

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*Victor Breno Pedrosa - Professor Doutor na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Possui graduação em Zootecnia, e Mestrado pela USP (Universidade de São Paulo). Tem especialização em Animal Genomics pela University of Guelph (Canadá) e Doutorado em Zootecnia pela USP (Universidade de São Paulo) e pelo Institut für Nutztiergenetik (Alemanha). É coordenador do LeMA - Laboratório de estudos em Melhoramento Animal.

 

**Laiza de Souza Lung - Supervisora Técnica em Genômica da CRV Lagoa. Possui graduação em Zootecnia pela UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina), Mestrado em Ciência Animal e Pastagens pela USP (Universidade de São Paulo) e Doutorado em Genética e Melhoramento Animal pela UNESP (Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho").

 

 

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