Embrapa: Sistema de controle reduz carrapatos em 82% sem uso de químicos

Embrapa: Sistema de controle reduz carrapatos em 82% sem uso de químicos

09 de novembro, 2021

A Embrapa realizou um estudo – nos biomas Cerrado e Pampa – para o controle de carrapatos em bovinos sem o uso de produtos químicos, utilizando apenas estratégias de manejo. Chamado de Lone Tick, o sistema obteve resultados iniciais de 82% de redução da população de parasitas nos rebanhos, com os animais em pastejo.

No Cerrado, a pesquisa avaliou o controle da infestação de carrapatos em bovinos da raça Senepol – durante um ano – no sistema de manejo rotacionado; obtendo uma média de 10 carrapatos por animal, sem uso de acaricidas. “Quando há cerca de 40 carrapatos no animal, significa que teremos problemas econômicos no rebanho”, informa Renato Andreotti, pesquisador da Embrapa Gado de Corte e responsável pela atividade de controle do carrapato-do-boi sem o uso de acaricidas. “Na raça Senepol, sensível ao carrapato, o projeto obteve sucesso. A meta agora é conseguir resultados semelhantes na raça Angus — animais produtivos e mais sensíveis ao carrapato — e presentes em diferentes regiões do País”, observa. O estudo será realizado por, pelo menos, dois anos.

No Pampa, por sua vez, o trabalho foi iniciado no segundo semestre de 2021 e os primeiros resultados registram uma redução de mais da metade da população de carrapatos. “Ainda, não podemos falar em percentual de redução da população porque estamos no início do projeto. Teremos mais certezas quando fizermos pelo menos uma avaliação sazonal. Mesmo assim, acredito que o trabalho está indo muito bem, pois os carrapatos adultos sobre os animais diminuíram”, relata o professor Rodrigo Cunha, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que realiza as coletas para avaliação do estado de saúde dos animais.

O carrapato traz consigo a doença conhecida como tristeza parasitária bovina (TPB) – causada pelos agentes Babesia bovisBabesia bigemina e Anaplasma marginale  que pode levar os animais à morte. Se o produtor não adotar um controle adequado, ele poderá sofrer grandes prejuízos.

O trabalho de melhoramento genético é um agravante para o problema da TPB. Os produtores de gado de corte, por exemplo, utilizam cruzamentos com raças mais produtivas para aumentar a precocidade dos animais e a qualidade de sua carne, entre outros fatores. Porém, essas raças são mais sensíveis ao carrapato. “O rebanho acaba ficando refém das infestações por carrapatos, porque foi produzida uma nova definição genética dessa população de bovinos cruzados em sistemas de produção. Estima-se que haja perda de um grama de carne por carrapato ao longo do ano, por isso se justifica economicamente a necessidade do controle”, explica Andreotti. 

O problema também acontece com o gado de leite. Animais mais produtivos costumam também ser mais sensíveis ao carrapato e isso provoca uma perda anual de leite de 95 kg por animal, principalmente com a raça holandesa, acarretando diminuição nos lucros. O pesquisador explica que os animais de raças europeias (e seus cruzamentos) são totalmente dependentes do controle do carrapato para poder expressar seu potencial genético produtivo. Caso contrário, há o risco de perda de produção e, em alguns casos, até de morte pela TPB. “No sistema Lone Tick, além do controle não usar acaricida, ele aceita a mesma carga animal do sistema de produção tradicional”, comenta.

Controle estratégico do carrapato

No Brasil, os pecuaristas utilizam diferentes formas de ação para controle de carrapatos. Desde um sistema mais tradicional, em que o produtor define o acaricida que vai usar no balcão da loja veterinária, até sistemas mais sofisticados com o uso integrado de práticas de controle (controle estratégico do carrapato), buscando impactos mínimos. 

Não obstante, o uso de acaricidas tem causado vários problemas para produção dos rebanhos. Por isso, o produtor precisa:

  1. Conhecer a biologia do parasita para melhor controle; isso fará retardar o avanço da seleção de parasitas resistentes, maior eficiência, menor custo e menor impacto no ambiente pela redução da quantidade de acaricidas;
  2. Conhecer as diferenças de temperatura e umidade nos diversos ambientes, ao longo do ano, pois há influência na produção de gerações do parasita e sua população; 
  3. Quando utilizados os acaricidas sobre os animais, é preciso aplicá-los da forma recomendada, o que não vem sendo obedecido com frequência, pois tem se observado consequências como a contaminação do ambiente, intoxicação das pessoas que aplicam o acaricida e dos produtos de origem animal. 

Segundo Andreotti, o uso intensivo de produtos químicos consecutivos num rebanho pode gerar o desenvolvimento de resistências. “O carrapato precisa ser monitorado anualmente e temos soluções tecnológicas mais eficientes, inclusive, oferecemos análises por meio do Museu do Carrapato, site que traz um banco de informações sobre os parasitas, onde são estudadas todas as espécies que chegam para análises, através de fotografias e posterior catalogação”, conta o cientista.

O controle Lone Tick

O Lone Tick (carrapato solitário, em uma tradução livre) é um sistema de controle sanitário sem uso de acaricidas; ou seja, sem a realização de controle químico. “Nossa intenção é apresentar uma solução global, pois o carrapato é um problema mundial”, destaca. Ele cita a infestação de carrapatos na pecuária da Austrália, um grande mercado de produção de bovinos, passando pela África, América do Sul e América do Norte (México e Estados Unidos).

Nesse sistema, muda-se o bovino de pasto de forma a separar o animal do carrapato e vai se alternando consecutivamente o local de pastagem do rebanho. O pesquisador diz que o tempo de uma rodada de quatro pastagens, até ao retorno à área inicial, é de 112 dias. Esse manejo promove um vazio forrageiro/sanitário de 84 dias no local da pastagem inicial, período em que as larvas do carrapato ficam solitárias e morrem por falta de animais para se hospedar e se alimentar. “Ou seja, matamos o carrapato, sem utilizar produtos químicos”, resume.

O trabalho compreende 5 etapas: contagem de parasitas por animal; coleta de carrapatos para verificação da resistência aos acaricidas; coleta de sangue dos animais para avaliação da presença dos agentes da TPB e para avaliação do estado de saúde geral do rebanho; e pesagem dos animais. Em seguida, é realizada a rotação do lote de animais entre os piquetes e, a cada intervalo de troca de área, é praticado o mesmo protocolo com os animais, repetindo as etapas.

O sistema foi estudado primeiro de forma experimental na cidade de Campo Grande (MS), onde – durante um ano – um lote de 37 machos desmamados da raça Senepol, com infestação natural de carrapatos, foi dividido em dois grupos (de 21 e 16 animais), sendo feita a rotação de pastagem com intervalo de 28 dias e sem a utilização de acaricidas. A área, de 32 hectares, foi dividida em quatro piquetes de oito hectares, com pastagem de Brachiaria brizanta, vr. Marandu. 

O primeiro lote de animais foi introduzido na pastagem no início do experimento e, após 6 meses, os animais do segundo lote. Em cada intervalo, foi contabilizada a quantidade de carrapatos nos animais. A média inicial de 26,2 carrapatos no primeiro mês caiu para 1,5 carrapato aos 56 dias. O resultado se repetiu e se manteve um baixo número de carrapatos nos animais sem uso de acaricidas até o fim do experimento. 

Andreotti afirma que a manutenção de uma baixa contagem de carrapatos nos animais é desejável para a manutenção da estabilidade enzoótica dos agentes infecciosos responsáveis pela TPB; ou seja, isto significa que os animais estão protegidos naturalmente contra a doença em função de estarem em contato permanente com baixas quantidades de carrapatos.“Com base nos resultados demonstrados, concluímos que a rotação com 84 dias de vedação dos piquetes foi efetiva no controle do carrapato sem a utilização de carrapaticidas, sendo possível, nas condições do bioma Cerrado, criar raças mais produtivas e com custo menor no controle do parasita agregando valor na cadeia produtiva”, salientou ele.

Além disso, o rebanho experimental obteve um ganho de peso médio diário de 0,425 gramas durante a pesquisa. Na contagem de carrapatos, o primeiro lote de animais teve uma média de 6,2 carrapatos por animal e o segundo lote, 10,36 indivíduos, sem a utilização de acaricidas durante o experimento.

Sistema apresenta controle ecologicamente correto

Andreotti comenta que um dos gargalos para o sucesso do controle estratégico do carrapato com o uso de acaricidas é o surgimento de carrapatos resistentes, resultado da pressão de seleção causada nas populações desses parasitas. O sistema Lone Tick corrigiu a carga parasitária para condições adequadas de controle. “Permitiu eliminar a pressão de seleção aos acaricidas funcionando como área de refúgio; ou seja, ele elimina o aparecimento de mutações relacionadas com a resistência na população de carrapatos. O sistema trabalha com baixa infestação de carrapatos com redução de impacto da sua ação e manutenção da estabilidade enzoótica para a TPB. Inclusive, durante um ano de observação e monitoramento dos animais, nenhum deles apresentou sintomas para a doença”, revela.

O sucesso do sistema Lone Tick, de acordo com o pesquisador, é porque o carrapato-do-boi completa o ciclo de vida no hospedeiro em 21 dias, com o ingurgitamento da fêmea e sua queda ao solo e consequente postura de três mil ovos, em média, iniciando a fase não parasitária. “As larvas emergem dos ovos e constituem 95% da população de carrapatos no ambiente, sendo fonte de reinfestação dos animais, não sendo alcançadas diretamente pelos carrapaticidas. A grande maioria das larvas do carrapato-do-boi não sobrevive no ambiente por mais de 82,6 dias”, explica Andreotti a razão do período de vazio sanitário de 84 dias.

“O sistema Lone Tick oferece uma forma de controle nesta fase de vida livre do carrapato, com base na rotação de pastagens, permitindo um tempo de 84 dias das larvas sem contato com o hospedeiro, tempo suficiente para a morte das larvas por inanição”, fala. Os resultados da pesquisa mostram que, com base no conhecimento da ecologia e biologia do parasita, é possível controlar de forma ecologicamente correta as populações dessa espécie de carrapato, atendendo assim, uma demanda de mercado internacional: a diminuição do uso de produtos químicos e seus efeitos colaterais.

 

Fonte: Revista Balde Branco

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