Incertezas diante do coronavírus podem pressionar valores do leite para baixo

Incertezas diante do coronavírus podem pressionar valores do leite para baixo

20 de abril, 2020

Segundo o Cepea, o preço do leite ao produtor em abril - na “Média Brasil” - deve manter a tendência de alta. Já, o valor do leite cap­tado em abril, que será pago aos produtores em maio, pode se enfraquecer, pressionado por incertezas relacionadas à crise do coronavírus.

Os impactos no consumo de lácteos se deram a partir de 17 de março, quando a pesquisa diária do Cepea re­gistrou choque de demanda para o leite UHT. Redes atacadistas e varejistas intensificaram a procura pelo produto, diante da forte demanda de clientes, que queriam fazer estoques por conta da pandemia. Desta forma, o preço médio do UHT registrou forte alta 22,7% na se­gunda quinzena de março e de 24,8% no acumulado do mês.

Por outro lado, com fechamento de redes de serviço e alimentação, o consumo de lácteos refrige­rados como queijos foi muito prejudicado. A pesqui­sa diária do Cepea mostrou que o preço médio da muçarela recebido pelas indústrias no estado de São Paulo teve queda acumulada de 0,97% em março.

Ressalta-se que dificuldades no escoamento de queijos colocam em risco o fatura­mento de pequenas e médias indústrias. Algumas já paralisaram suas atividades e suspende­ram a compra de leite no campo em regiões onde o sistema agroindustrial do leite é menos desenvolvido.

Mesmo com o desempenho ruim da muça­rela, o leite spot havia registrado alta nas duas quinzenas de março, fican­do, na média, quase 5% maior do que em fevereiro em Minas Gerais. Assim, o pagamento ao produ­tor em abril deve se manter na tendência altista. No entanto, a fragilidade do mercado de quei­jos e a instabilidade do consumo geraram um efeito em cadeia, levando a queda no preço do leite spot. Em Minas Gerais, o preço médio do leite spot caiu 7,3% e 11,7% nas primeira e segunda quinzenas de abril, respectivamente.

A elevada incerteza da atual conjun­tura tem impactado a decisão dos agentes em recom­por estoques, dado o contexto em que não há boas perspectivas para o consumo de longo prazo, devido à diminuição da renda da população. A pesquisa di­ária do Cepea mostrou que, de 1º a 15 de abril, os preços médios do UHT e da muçarela registraram que­das acumuladas de 4% e de 4,2%, respectivamente.

Para maio, as negociações em queda dos derivados e do spot durante abril indicam um cenário ruim para o pre­ço ao produtor. As indústrias lácteas poderão se deparar, em poucas semanas, com um cenário de baixo faturamento, o que certamente será transmitido aos produtores.

A queda na receita dos produtores num momento de alta nos custos de produção e próximo ao período típico de entressafra no Sudeste e Centro-Oeste pode refletir em aumento do abate de fêmeas e na saída de produtores da atividade. Assim, o momento é delicado, pois privilegia decisões focadas no curto prazo, o que pode trazer consequências negativas no longo prazo – ainda mais para uma atividade tão complexa quanto a produção de leite.

 

Fonte: Boletim do Leite do Cepea / Abril 2020

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