Preço do leite encosta no teto e cenário começa a mudar

Preço do leite encosta no teto e cenário começa a mudar

21 de junho, 2026

Vamos começar pelo fim. Ao término do primeiro semestre do ano, os sinais são que os preços ao produtor, à indústria e ao consumidor estão chegando no limite máximo. E, depois do máximo...Para entender este novo cenário que está surgindo, siga a análise da equipe de especialistas da Embrapa Gado de Leite.

CONJUNTURA DO MUNDO

  • Oferta mundial elevada. A produção de leite na União Europeia tem sido elevada desde junho de 2025, sendo que março atingiu volume recorde, com quedas pouco impactantes nos meses de abril e maio. O mesmo vem ocorrendo desde o verão passado nos Estados Unidos. Já a Oceania, importante por contribuir na definição de preços internacionais, acumula volumes expressivos de produção ao longo de todo o primeiro semestre deste ano.
  • Oferta também aquecida nos vizinhos do Mercosul. Os dois principais países ofertadores de lácteos para o Brasil estão com taxas anuais de crescimento da produção desde janeiro de 2025. IA novidade está na busca por novos mercados, visando diversificar destinos de suas exportações, e estarem preparados, caso haja ação das autoridades brasileiras ao processo de dumping. Mas ainda não se vê no horizonte a adoção de salvaguardas em 2026, visando reduzir importações dos vizinhos.
  • Preços em queda das commodities lácteas. O leilão mais recente GDT, ocorrido em 16 deste mês, registrou queda de preços de 2,6%, com retração em todos os seis produtos que compõem este índice. Esta tendência do mercado internacional vem ocorrendo desde março do corrente ano. Entre 16/março e 16/junho os preços acumularam queda de 8,1%. As crises dos EUA e Irã e da Rússia e Ucrânia não afetaram os preços do mercado lácteo mundial.

CONJUNTURA DO BRASIL

  • Preço ao Produtor em alta. O preço médio do leite pago em maio e entregue em abril foi de R$2,66, de acordo com o Cepea/Esalq/USP. Isso representa uma variação de 31% em relação janeiro deste ano. O mercado de leite Spot registrou variação ainda maior em igual período e variou 56%, alcançando R$ 3,06 em junho.
  • Preço ao produtor não é competitivo. O preço pago ao produtor brasileiro e cresceu significativamente a partir de janeiro deste ano. Quando cotejado em dólar, dado o efeito cambial, que apresenta dólar valorizado na Argentina e desvalorizado no Brasil e, dadas a sdistorções de mercado na formação de preço em ambos os países, o resultado é que o produtor argentino tem recebido cerca de 70% do preço pago ao produtor brasileiro, nos últimos dois meses.
  • Custo de produção caiu em maio. A alimentação teve impacto direto na redução do custo de produção de leite, medido pelo ICPLeite/Embrapa. Foi -0,7% em maio, diante de uma inflação oficial de 0,6%, o segundo consecutivo com queda de custos, acumulando uma retração de -1,3% em relação a março. Nos primeiros cinco meses do ano o custo de produção cresceu 2,3%, frente à inflação oficial de 3,2% no período. Nos últimos doze meses o custo de produção de leite acumulou 1,6% de alta, enquanto que a inflação brasileira foi de 4,4%.
  • Importação continua em volume elevado. Apesar das dificuldades que o Governo Federal impôs aos laticínios, ao privá-los de usufruir da renúncia fiscal do PIS/COFINS caso importem diretamente ou adquiram commodities de traders, o volume importado ainda se mantem elevado. Isso é reflexo dos preços praticados internamente, que são maiores que os internacionais. De janeiro a maio o Brasil importou o equivalente a 1,02 bilhão de litros de leite. Isso corresponde a um aumento de 10,5% frente ao mesmo período de 2025.
  • Lácteos estão puxando a inflação. Em maio, dos oito grupos de lácteos pesquisados pelo IBGE, somente manteiga e leite em pó tiveram variação de preços menores que a inflação oficial de 0,6%. No conjunto, os lácteos apresentaram uma inflação de 1,1%. No acumulado do ano, os lácteos tiveram variação de preços de 4,8%, contra 3,2% do IPCA. Mas, numa comparação em doze meses, os lácteos contribuíram para conter a inflação, já que o IPCA foi de 4,7% e os lácteos de 3,3%.

CENÁRIO DE CURTÍSSIMO PRAZO

  • Os preços internacionais das commodities lácteas, representadas pelo leite em pó e desnatado, queijos cheddar e muçarela e pela manteiga e gordura anidra, não mostram sinais de grandes alterações no curto prazo. Na Europa e Estados Unidos o verão estará começando, sem que haja grandes problemas de produção à vista. Por outro lado, não há sinais de grandes compras inesperadas a serem feitas pela China e por países importadores de petróleo, que poderiam criar viés de elevação substancial de preços. Com o arrefecimento do conflito EUA e Irã os preços dos combustíveis tenderão a cair.
  • No ambiente nacional, há que se considerar as variáveis macroeconômicas, tão importantes para análise de cenários lácteos. Ainda que tenha sido a maior inflação no mês de maio, desde 2021, e mesmo estando fora da meta, os preços ainda não corroem o poder de compra dos salários a ponto de impactar as compras de lácteos. Ademais, os indicadores do mercado de trabalho seguem favoráveis, com ótimo nível de emprego e renda, o que tende a contribuir para um bom consumo de lácteos. Mas, há sinais de formação de nuvens cinza no horizonte. Os indicadores do varejo já mostram queda do consumo de maneira geral em maio e a venda de cimentos caiu, um indicador de apetite em construções e reformas. Também o PIB do primeiro trimestre cresceu menos que o esperado.
  • Além disso, há que se considerar a disseminação das canetas emagrecedoras, que começaram a ser feitas no Brasil e vendidas a preços mais acessíveis. Nos EUA, o impacto no setor de alimentos foi rápido e reduziu a demanda dos lácteos tradicionais, que utilizam gordura e açúcar em maior intensidade e houve a valorização de derivados com proteína concentrada, como o Whey. Este fenômeno, que já vinha sendo observado no Brasil, deverá se intensificar.
  • Sob a ótica do produtor, os custos de produção deverão continuar bem comportados, com a disponibilidade de milho e soja a preços aceitáveis, como tem sido nos últimos meses. Os combustíveis deverão cair preços.
  • Para as próximas semanas, vale acompanhar o apetite do consumidor para lácteos e a reação dos laticínios. Também vale acompanhar os movimentos do Governo na definição das regras do Plano Safra, em momento de margens apertadas em grãos para quem produz, e acompanhar o volume de entrada de lácteos via importação.

 

Fonte: Centro de Inteligência do Leite (CILeite/Embrapa)

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